Correio do Minho

Braga, terça-feira

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As eleições e a lamentável campanha verificada em Celeirós

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Ideias

2011-03-28 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Anão aprovação, na Assembleia da República, no passado dia 23 de Março de 2011, do Programa de Estabilidade e Crescimento IV, originou uma crise política que, muito provavelmente, culminará com a realização de eleições antecipadas em Portugal.

O amadurecimento do actual sistema democrático português, um dos mais admirados a nível mundial, proporciona este tipo de situações, em que a substituição de um governo, quer seja provocado pela acção do Presidente da República (veja-se o caso do governo de Santana Lo-pes), quer seja provocada pela acção da Assembleia da República (como acontece actualmente), é encarada com total normalidade democrática.

Os actos eleitorais verificados em Portugal são disputados de forma tranquila, quer por aqueles que se candidatam, quer pelos que elegem. No entanto, no nosso país, nos tempos anteriores ao 25 de Abril de 1974, aconteciam episódios que levavam a que ocorressem, com frequência, actos de grande agitação social.
Neste ambiente de pré-campanha eleitoral, que se vive actualmente, vou recordar um episódio que ocorreu na freguesia de Celeirós (concelho de Braga), aquando da célebre candidatura presidencial do general Humberto Delgado.

Para essas eleições presidenciais, o candidato do Estado Novo (e de Salazar), contra-almirante Américo Tomás, reunia os consensos, em muitos casos forçados e impostos, das instituições portuguesas. Todos os que se opunham a esta situação política instalada eram criticados, perseguidos e até presos. Neste ambiente de receios generalizados, até a população tinha medo de se manifestar publicamente.

Foi precisamente nesta campanha eleitoral que população de Celeirós decidiu contribuir para a afirmação pública do candidato Humberto Delgado, manifestando-se num dos locais mais visíveis de então: a estrada que liga Braga ao Porto.
Na altura, tal como ainda na actualidade, o domingo era o dia mais indicado a manifestações e campanhas de apoio aos candidatos. Por isso, no dia 1 de Junho de 1958 (domingo anterior às eleições, que se realizaram a 8 de Junho), um elevado grupo de pessoas de Celeirós resolveu invadir a estrada que liga Braga ao Porto, distribuindo material de campanha a todos os que por lá passavam.

Este comportamento, que indignou muito os meios de comunicação da época, todos controlados pela censura e praticamente todos submetidos aos interesses do Estado Novo, provocou um conjunto de críticas, lideradas pelos jornais, que acabaram por se manter durante vários dias.
No sábado, dia 7 de Junho de 1958 (dia anterior ao acto eleitoral), o jornal ‘Correio do Minho’ ainda mantinha esta “polémica”, afirmando, em título, “Que se passa em Celeiroz?”.
O jornal começava por referir que os habitantes da freguesia de Celeirós são conhecidos por serem “um povo laborioso e pacifico” mas têm, nesta campanha eleitoral, “tomado algumas atitudes inconcebíveis”.

A indignação era bem evidente, ao ponto do mencionado jornal referir que “um grupo de díscolos e de garotos de ambos os sexos deu largas, em Celeiroz, ao seu aprimorado conceito de liberdade, da liberdade que nos desejavam impor se nós deixássemos”.
Esses desordeiros, como eram caracterizados os manifestantes, estavam “munidos de cartazes com a linda efígie do General Delgado”, aproximavam-se da berma da estrada, gritando “selvaticamente Humberto!, Humberto! Humberto”, metendo panfletos de campanha eleitoral “do candidato da desordem”, nos veículos que passavam, só os deixando seguir se as pessoas que por lá circulavam “correspondessem aos urros que solta-vam, avinhando urros de ódio implacável”.

O comportamento da população de Celeirós foi, mais uma vez, criticado, quando no dia 3 de Junho de 1958, uma terça-feira, voltaram a manifestar-se, agora contra as pessoas que iam nas “camionetas” que passavam em direcção ao Porto, para assistirem ao comício que aí se realizou com o candidato Américo Tomás. O apedrejamento verificado provocou vários danos materiais, e “só por sorte se não registaram desastres pessoais”.

O jornal referido questionava, de forma indignada, quem “maneja aquele povo ordeiro e bom e o incita à desordem e à agres-são?”. A revolta era de tal forma vincada contra o povo de Celeirós, que o jornal perguntava: “Entendem os corifeus de Celeiróz que o País se há-de governar pelas suas ideias e pelos seus apetites?”.

Também por este ambiente, o jornal “Correio do Minho” apelava, no próprio dia das eleições presidenciais (8 de Junho de 1958), na sua primeira página, que o eleitor tinha duas obrigações sagradas a cumprir nesse dia: ir à missa cedo e seguir imediatamente para a respectiva secção eleitoral. Estas duas obrigações tinham que ser cumpridas “Por Deus e pela Pátria”.

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