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As Dementocracias

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2016-10-23 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

A civilização reduziu o Homem a um voto. Desarmado do que esmague, retalhe ou perfure, o homem social afirma vontades e atesta poderes por intermédio de uma garatuja. Há eleições, para que não ceda o cidadão ao desvario da sublevação e da guerra civil. Há eleições, para que o Estado não seja conquistado em dor, sobre sangue e escombros. O homem social entende e alinha.

A cabine de voto reduz, nivela e sublima, faz forte o sarrabisco do plebeu, tanto quanto já o é o gatafunho do hierarca. Eu semelhante a ti! Tu idêntico a essoutro! Nem na morte somos tão iguais! Castas? Votos de qualidade? Não! Cá na Europa, não, pois não? Só que eu já nem sei: estarei febril?

Falarei de França. Mélenchon atraiu 11% do eleitorado na primeira volta nas presidenciais de 2012, e tudo se conjuga para que obtenha um resultado retumbante em 2017… se acaso puder apresentar-se a sufrágio. Isto porque, por francesa espertice, um candidato como Mélenchon carece do apadrinhamento de 500 grandes eleitores - de maires - para que o seu nome conste dos boletins de voto. Retenha-se a ironia: Mélenchon é a quarta figura pública mais popular entre os franceses, à frente de Hollande, e pouco abaixo de Marine Le Pen; é o candidato de esquerda mais bem posicionado, mas pode morrer na praia, por não despertar a simpatia de meio milhar dos 36 000 com privilégio de pernada. Trinta e tal mil que podem negar a eventuais 8 milhões o legítimo direito de escolha. É obra! E logo em França, essa esquecida ama-seca da Igualdade, entre roliças maninhas.

Prevista para acorrer às prioridades da maioria, para identificar e exponenciar o bem comum, serve a democracia mais amplamente os estratagemas da clique instalada no primeiro tombadilho. A que é que deveria responder, realmente, a alteração de há 6 meses da lei eleitoral francesa? Seria para tornar mais ágil a democracia? Como, se à porta de casa possa ficar candidato que não concite a simpatia de cinco centenas de notáveis, ainda que se mostre capaz de reunir vinte mil assinaturas de cidadãos anónimos? Em que democracia uma caserna de 500 comprometidos entrava a livre escolha de um rancho 500 vezes maior de concidadãos?

A democracia é um valor desqualificado, mais partner de ilusionista, lúbrica, bamboleante, em maillot e saltos altos - nós a olharmos para ela, e o truque matreiro a correr atrás do pano. A democracia aparece e some conforme as necessidades. Atropela-se a democracia em França, para que um candidato incómodo sue a estopinhas ou veja abortada a corrida ao Eliseu. Exalta-se a democracia, no Reino Unido, para convocar um referendo, para dar voz ao povo, esse lídimo detentor do Poder. Tudo a favor de referendos, os suíços até se dão bem com o sistema. Só que na Inglaterra a jogada foi deliberadamente inquinada, nada como as águas que, cristalinas, brotam das cumieiras alpinas.

Vivemos entalados por democracias bastardas, a ponto do microcéfalo americano perorar que não reconhecerá a derrota, que só por fraude eleitoral perderia. Ó inteligência claudicante! E lá andam, do outro lado do Atlântico, nessa maior democracia do planeta, a discutir em que medida é que um tal de Putin manobra nos bastidores. É mesmo de nada mais ter para dizer. Mas faz tandem com as rabugices do Tusk: que o que os russos querem é dividir a Europa! E tão unidinhos que nós somos…

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