Correio do Minho

Braga, quinta-feira

- +

“As coisas do tempo e o tempo das coisas”…

Plano de Desenvolvimento Pessoal, Social e Comunitário da ESMS

“As coisas do tempo e o tempo das coisas”…

Ideias

2020-09-21 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Férias são tempo natural de pousio e de singularidade… de fazer coisas diferentes e de repousar uma rotina que nos acompanha e cansa longos e repetidos dias do ano. Momento tão esperado quanto diferenciado, férias (regra geral) são também tempo de reflexão, de algum balanço entre o que fizemos (e o que ficou por fazer) e o que queremos fazer e não podemos deixar de (continuar a) fazer. Férias são também o momento em que (queremos) acreditar que o tempo para e nos oferece a oportunidade de “gozar” o tempo sem contagem e condição.
Todavia, férias não deixam de ser parte da vida e do tempo que ele significa. E, como tal, não têm esse condão mágico de suspender as horas, os dias e as semanas, antes, simplesmente, detêm a capacidade de nos dotar de outra capacidade e distância para ver e interpretar. Talvez, porque não precisamos de tanta coisa, talvez porque não queremos tanta coisa, talvez porque disponíveis para aceitar tanto mais… Férias são assim parte integrante do tempo e um tempo próprio e singular.

Estas férias foram ainda mais marcadas pelo tempo que corre e pelo sinal do tempo: a pandemia reenquadrou os múltiplos contextos de estio e veraneio, obrigando a novas opções e procura. A pandemia “não tirou férias” e os seus efeitos continuaram a, directa ou indirectamente, a sentir-se e a reflectir-se em todos nós, no seio de todos nós.
A cidade e o território são exemplo disto mesmo. Nunca parando, nunca deixando de pulsar ou reclamar vida e dinamismo, um tempo próprio e insubstituível (quanto irrecuperável – tempo passado é tempo irrepetível), a cidade e o território traduzem a realidade do tempo actual: centros urbanos ditos “turísticos” desertos do movimento galopante de sucessivas vagas de turistas, praias sem número de pessoas para lá do limite admissível e da capacidade de controlo e vigia, um “interior” mais procurado, visitado e usufruível. E, em simultâneo, nunca deixando de visibilizar os seus problemas, quali- dades e desafios, seja ao nível da mobilidade e ambiente, seja ao nível da habitação e reabilitação urbana, desporto e sociedade, entre tantos outros. Provavelmente, expondo uma oportunidade única que há muito não se imaginava: disponibilidade e aceitação para a mudança, porque aceita a necessidade de mudança; descoberta natural e descontraída, por vontade e opção, de um “território” tão desvalorizado quanto, tantas vezes, esquecido. Ou seja, cidade e território que não escondem o seu tempo e não disfarçam as consequências do tempo que corre indiferente à realidade que encontra.

Reconhece-se assim o “tempo das coisas” e “as coisas do tempo”, numa relação ambivalente que condiciona e potencia: nunca esquecendo que o tempo é uma oportu- nidade e que tempo vivido é tempo passado; sempre lembrando que tudo e todos têm o seu tempo próprio e singular.
Num momento indisfarçavelmente único e fomento de múltiplas consequências e sequências, é tentador olhar para a cidade e para o território e descobrir uma oportunidade de “mexer e fazer coisas”, um afã de produção de obras e projectos próprios, de um momento mais disponível e favorável à mudança e ao ajustamento. Dir-se-á que a mobilidade e o espaço público estão no centro desta realidade, traduzindo uma vontade generalizada em favorecer a pedonalidade e o espaço público de estar e lazer, em alastrar a prática ciclável e as bicicletas em detrimento do automóvel, sempre do automóvel. Poder-se-á dizer o mesmo da habitação e do confronto entre uma acessibilidade capaz a uma habitação digna, um mercado imobiliário estupefacto e paralisado em tantos ramos (nomeadamente, alojamento local) e realidades habitacionais específicas - por exemplo, alojamento de estudantes – em défice e acesso desregulado.

Por isso mesmo, o tempo é tentador. Tentador de fazer “coisas”, de queimar etapas e precipitar obras… sendo conveniente celebrar esta vontade mas nunca esquecendo que, se este tempo revela as suas “coisas”, também “estas coisas” têm o seu tempo… ou seja, de pensamento, de maturação e de execução. Fazer a pensar no seu efeito imediato, no resultado da resposta ao tema premente e actual sem valorizar, questionar e resolver as suas causas (que implica sempre tempo lento) é tratar da aparência, nunca da essência…. Talvez, disfarçar, nunca transformar!
A pretexto do veraneio das férias, aprendamos com a praia-mar: entre a maré baixa, que nos permite avançar no mar sabendo que a probabilidade de se “perder o pé” é tão ínfima quanto a nossa loucura (mas não impele nem tenta ao mergulho vigoroso) e a maré alta, que nos tolhe o movimento com o medo da corrente e de se ficar sem chão arenoso, procuramos sempre a praia-mar, o sábio equilíbrio das necessidades e dos interesses, da harmonia e conciliação. Nunca perdendo a noção de que, mesmo esta praia-mar tem o seu tempo… que, por vezes, é imperceptível. Sempre fugaz e passageiro! Assim saibamos aproveitar quando nos confrontarmos com a nossa praia-mar…

Nota final:
A capacidade de suporte e resposta a tempos anormais demonstrada pelas ditas “cidades médias” mostram o quanto são, meritoriamente, incontornáveis para um território qualitativo, coeso e competitivo.
Que tal não seja esquecido na hora da distribuição da tão esperada e afamada “bazuca financeira” que, da Europa, chegará…

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho