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As Bibliotecas, Maria José Moura e a Rede de Leitura Pública

Um caos ou um caso de sucesso

As Bibliotecas, Maria José Moura e a Rede de Leitura Pública

Ideias

2018-11-15 às 06h00

Rui A. Faria Viana Rui A. Faria Viana

Diversos órgãos de comunicação social, várias organizações ligadas à problemática das bibliotecas e do livro, nacionais e estrangeiras, e, até mesmo o Presidente da República Portuguesa lamentaram a morte de Maria José Moura (1937-2018) ocorrida no passado dia 2 de Novembro. Conhecida como sendo a “criadora da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas” por ter tido um papel decisivo no desenvolvimento da Leitura Pública no Portugal democrático, a Dr.ª Maria José Moura foi a coordenadora do grupo de trabalho que, em 1986, definiu os pressupostos que serviram de base à criação da Rede de Bibliotecas Municipais. Criado por despacho (23/1986) da então Secretária de Estado da Cultura (Maria Teresa Pinto Basto Patrício Gouveia), a este grupo de trabalho, que tinha como missão definir as bases de uma política nacional de leitura pública, Maria José Moura juntou Maria Teresa Calçada, Pedro Vieira de Almeida e Joaquim Macedo Portilheiro que, nesse mesmo ano, produziram um “relatório sobre as bibliotecas públicas em Portugal”, e que Maria José Moura, em entrevista que concedeu na altura, considerou como um “escândalo” dez anos depois do 25 de Abril só existirem “meia dúzia de bibliotecas das câmaras com as estantes fechadas. Tudo poeirento, triste, sem luz. Era uma coisa sem vida”.

Deste relatório, surgiram as principais linhas orientadoras para o estabelecimento das bases de uma política de leitura, defendendo-se que deviam assentar na “implantação e funcionamento regular e eficaz de uma rede de bibliotecas municipais, assim como no desenvolvimento de estruturas que, a nível central e local, mais directamente as possam apoiar”. Estas bibliotecas públicas/municipais deveriam ser dotadas de colecções enciclopédicas e em diversos suportes, com livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário, secções distintas para crianças e para adultos e gestão profissionalizada, novidades que aos poucos foram acontecendo nas várias bibliotecas que foram surgindo nas sedes dos concelhos por este país fora.

Podemos dizer que, neste campo, se operou uma verdadeira “revolução silenciosa”, como escreveu Maria José Moura no último trabalho que assinou (2016), pois, Portugal de 1987 até aos dias de hoje, assistiu à implantação progressiva de bibliotecas públicas, em edifícios novos ou reconvertidos, que têm vindo a desenvolver um trabalho extremamente válido assegurando às populações, de forma efectiva, o direito à cultura.
Maria José Moura, que ficará para nós como um exemplo de perseverança e de constante empenho pela causa das bibliotecas, era licenciada em Ciências Históricas e Filosóficas e possuía o curso de Bibliotecário e Arquivista, pela Universidade de Coimbra. Exerceu as funções de directora dos Serviços de Documentação da Universidade de Lisboa até 1987, e desde aí, dirigiu o Programa da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas até 2006. Foi, simultaneamente, coordenadora geral do Projecto do Inventário do Património Cultural Móvel, delegada nacional do Programa Geral de Informação da UNESCO, vice presidente do Conselho Superior de Bibliotecas, responsável pelo National Focal Point- Telematic for Libraries Program, membro do Information Society Forum (Bruxelas), e fazia parte da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura. Foi uma das fundadoras da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD), da qual já tinha sido presidente da direcção e da mesa da assembleia geral. Maria José Moura fez parte dos comités permanentes da Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias, designadamente do de Bibliotecas Públicas e do de Edifícios e Equipamentos Bibliotecários. Foi condecorada pelo Estado Português com a Ordem de Mérito e, em 1998, recebeu o Prémio Internacional do Livro, em Amesterdão, por proposta da IFLA.

Convivi perto de trinta anos com a Dr.ª Maria José Moura de quem guardo a mais grata recordação não só pela excelente profissional que sempre foi mas, também, pela amizade que sempre nos abraçou. Devo-lhe, entre outros aspectos, o honroso convite para integrar um grupo de bibliotecários portugueses que visitaram, em 1995, diversas bibliotecas públicas da região de Marselha (França), quando exercia as funções de Directora de Serviços de Leitura Pública do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro e eu iniciava uma nova carreira nas bibliotecas públicas.
A minha gratidão pelo enorme legado deixado à causa das bibliotecas e da leitura pública em Portugal.

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