Correio do Minho

Braga, sexta-feira

As Bibliotecas e o Manifesto da Unesco (I)

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias

2018-05-03 às 06h00

Rui A. Faria Viana

Oconceito de leitura pública, hoje um princípio orientador para as bibliotecas públicas de todo o mundo, surge após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ao designar-se a leitura feita em bibliotecas de natureza institucional e públicas. No entanto, só depois de terminada a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é que se dá uma maior atenção ao desenvolvimento de uma política de leitura pública com a publicação do Manifesto da Unesco para a Biblioteca Pública, mandado elaborar pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) ao escritor francês André Maurois. Tratando-se de um texto, mundialmente aceite, que apresenta em termos gerais os princípios orientadores pelos quais se deve nortear uma política de leitura pública em qualquer país do mundo, independentemente do seu nível de desenvolvimento, diferenças sociais, políticas, culturais e económicas, as três versões até aos dias de hoje elaboradas reflectem preocupações tidas em diferentes momentos pela promoção da leitura e da cultura.
A primeira versão do Manifesto da Unesco para a Biblioteca Pública surge em 1949, considerando as bibliotecas públicas como estruturas essenciais para o processo educativo e para o desenvolvimento das comunidades locais, sendo denominadas de Agências democráticas para a educação. Aqui, é de assinalar a importância desta instituição para o povo, que deveria ser sustentada pelo erário público, na promoção da igualdade (sem se atender às profissões, religiões, classes sociais ou raças) e de uma educação que permitisse ultrapassar as dificuldades e os desafios da vida moderna. O objectivo essencial, neste período caracterizado por uma elevada taxa de analfabetismo, era acentuar o papel da biblioteca pública enquanto instrumento associado ao ensino e à educação de crianças, jovens e adultos, facilitador de informação primordial a uma tomada de decisão consciente.
Passadas mais de duas décadas, mais especificamente em 1972, é elaborada uma segunda versão deste manifesto. Agora, a biblioteca pública era entendida de uma forma mais abrangente devendo estas instituições não só apoiar a educação mas também constituírem-se em centros culturais, atendendo à sua tradicional função na preservação e divulgação da memória impressa das comunidades. Esta nova versão do manifesto apresenta também a particularidade de, pela primeira vez, assinalar a importância do papel das bibliotecas enquanto responsáveis pela criação de hábitos de leitura sobretudo a partir das mais tenras idades.
Em 1991, a 57ª Conferência da IFLA (International Federation of Library Associations and Institutions), realizada em Moscovo, foi marcada pela necessidade de uma reflexão em torno da missão das bibliotecas públicas, agora numa sociedade em mudança, em resultado da abertura política da Glasnost, com implicações importantes no seio do livro e da política cultural, protagonizada por Mikhail Gorbachev (Presidente da União Soviética de 1990 a 1991). A partir daqui, uma equipa liderada por Thierry Giappiconi (França), Marie Riesthuis (Holanda) e Hellen Niegaard (Dinamarca) desenvolveu durante cerca de três anos o trabalho de revisão do Manifesto da Unesco para a Biblioteca Pública, cuja versão definitiva do texto, que é a que actualmente se encontra em vigor, foi aprovada em 1994, apesar da ligeira actualização verificada em 2009. Nesta nova versão de 1994, os livros deixaram de constituir o eixo central das colecções; o prazer e a recreação passaram a ser os grandes objectivos da Biblioteca Pública; conseguir congregar a comunidade para um projecto comum passou a constituir a missão chave da Biblioteca Pública e a solidão, as deficiências físicas e mentais deveriam constituir-se como problemas reais a serem contemplados, de alguma forma, pela Biblioteca Pública são as diferenças mais significativas, segundo Hellen Niegaard, relativamente à versão de 1972.

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