Correio do Minho

Braga, quinta-feira

As Bibliotecas do Dr. Rodrigo Veloso e do P.e João Rosa

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2015-10-08 às 06h00

Victor Pinho

Num tempo em que a leitura e o acesso ao livro eram privilégios só de alguns, assumiam papel de relevo as bibliotecas particulares, autênticos tesouros, recheadas de livros belamente encadernados e que eram guardados religiosamente como se de relíquias se tratassem. Constituíam verdadeiras “babéis” de sabedoria ao serviço dos seus proprietários e dos seus amigos. Idos para o além os seus possuidores, e sem descendentes ou com descendentes numerosos, essas bibliotecas eram partilhadas em leilões e os seus tesouros divididos por terceiros.

Em Barcelos, é o caso das bibliotecas do Dr. Rodrigo Veloso, advogado, notário e político progressista, e do P.e João Rosa, pároco da freguesia das Carvalhas-Barcelos. Infelizmente, pouco ou nada se sabe da constituição dos seus espólios, bem como do seu destino. Todavia, sabemos que José dos Santos, célebre alfarrabista lisboeta, foi autor dos dois catálogos de leilões do Escrínio bibliográfico da Biblioteca do Dr. Rodrigo Veloso (Porto: Tipografia da Empresa Literária e Tipográfica, 1914-1916).

Rodrigo Augusto Cerqueira Veloso nasceu em S. Miguel de Lavradas, Ponte da Barca, em 4.2.1839 e faleceu em Lisboa, no Hospital de S. José, em 24.6.1913. Viveu grande parte da sua vida em Barcelos, onde se fixou, depois de concluída a formatura em Direito, na Universidade de Coimbra, em 1864, e onde seu pai foi Juiz de Direito. Aqui casou e teve descendência. Por quatro vezes, foi administrador do concelho e exerceu ainda funções na vereação municipal.

Destacado jornalista (entre outros jornais, escreveu vários artigos e folhetins no “Bracarense”) filólogo, bibliógrafo notável e erudito escritor, era detentor da maior biblioteca particular do norte do país, localizada na Casa do Barão da Retorta, no Largo José Novais, onde vivia e onde recebia metade da correspondência destinada a toda a então Vila de Barcelos.

É de salientar a sua actividade de editor, publicando obras de alguns poetas portugueses, tais como João de Deus, Antero de Quental e Guilherme Braga. Dirigiu, em Barcelos, o jornal “Aurora do Cávado”, de 1868 a 1898, ano em que suspendeu a sua publicação e que continuou a publicar-se em Lisboa, no ano seguinte, em formato reduzido, quando da sua colocação na capital, em 1898, como tabelião de notas. Apelidado do 'vademecum do bibliógrafo português', era muito apreciado, principalmente pelas “interessantes” secções bibliográficas da sua autoria. Nele colaboraram os mais famosos poetas e prosadores portugueses.

João Pereira Gomes Rosa nasceu em Barcelos, em 12.5.1839 e faleceu nas Carvalhas, em 17.1.1901, cuja freguesia paroquiou cerca de vinte anos. Antes foi coadjutor, desde 26.1.1864, do P.e Domingos Joaquim Pereira, Abade do Louro, seu tio paterno, e com quem foi educado.
Possuía uma boa biblioteca, das melhores do distrito, com 'verdadeiras preciosidades, mormente sobre a história de Barcelos', onde passava os seus tempos livres. Diz-se que, tendo necessidade de calças, preferia antes comprar livros.

O P.e João das Carvalhas, como era conhecido, era dos sacerdotes mais cultos do concelho de Barcelos, tendo colaborado em diversas publicações locais. Deixou inúmeros manuscritos, grande parte dos quais versando temas da arqueologia concelhia, que foram legados a seu irmão, Domingos Gomes Rosa, mas cuja propriedade actual desconhecemos.

Aqui fica o registo de duas bibliotecas particulares de dois contemporâneos que nasceram no mesmo ano e que tinham o mesmo gosto pelos livros.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.