Correio do Minho

Braga, quinta-feira

As árvores da razão

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2013-10-17 às 06h00

José Manuel Cruz

Acoberto das primeiras chuvas de outono encontro oportunidade para escrever sobre o flagelo dos fogos de verão. Em geral, escrevemos - ou falamos - sobre o que nos inquieta e deixa atónitos, sobre o que não desculpamos e gostaríamos de ver resolvido. Numa roda de amigos, quando a conversa deita para o sério, é comum ouvirmos as expressão se eu mandasse seguida duma ideia ou urgência pela qual o orador se bateria até ao limite das suas forças.

Claro que não ajuda nada à seriedade do debate que o orador, parte das vezes, já esteja um bocadinho alegre, para não dizer mais. Pena é, no entanto, que passado o calor do momento, regressemos todos às nossas vidas pacatas e anónimas, a um quotidiano em que a alienação futebolística se sobrepõe às causas cívicas de fundo.

Assim, na sobriedade deste momento, permitam-me a expressão duma ambição: se eu mandasse acabava com os incêndios florestais. Assim, sem mais nem menos! Entendamo-nos: jamais poderia estar ao meu alcance controlar todas as mãos criminosas e cobardes que semeiam chamas, jamais poderia controlar todas as queimas domésticas que redundam em infernos pavorosos. Mas, para além destas questões da humana imprevisibilidade, há todo um conjunto de circunstâncias sobre as quais podemos agir, condicionando a propagação e a magnitude das ignições.

Atrevo-me a dizer que acabaria com os fogos florestais porque não me resigno a viver o paradoxo de serem conhecidas as vias de resolução dum problema, sem que, contudo, nada se faça nesse exacto sentido. Imaginemo-nos diante dum médico que nos confirma que estamos doentes, mas que logo nos tranquiliza ao dizer que conhece a natureza do nosso mal, para o qual há bom e provado remédio, embora o tratamento e a convalescença possam ser prolongados. Não sairíamos nós confiantes desse consultório e desejos de começar imediatamente o tratamento?

Reconhecendo que nos escaparia sempre um aprendiz de pirómano, uma pessoa ressentida contra um conjunto de vizinhos ou autoridades, seria justo que investíssemos tempo e recursos no controlo dos factores da propagação. Repetimos, todos nós, que os proprietários não limpam matas e bouças. Em boa medida será verdade. Mas à questão da limpeza sobrepõe-se a questão dos acessos e circulação, a questão dos espécimes arbóreos, a intercalação de espécimes resistentes ao fogo, etc.

Dou-me a este exercício na base dum jogo de fantasia para o qual todos nós descaímos quando nos atrevemos a concluir uma frase que começa co a introdução “se eu mandasse”. Não sou especialista de incêndios, nem de Botânica ou floresta. Nos tempos mais recentes tive a experiência de um incêndio em finais de Agosto e, durante o mês de Setembro, a experiência de conduzir por fins de estrada a meia encosta ou entre vertentes, por montes calcinados e por montes intactos, pelo menos até ao dia em que venham a cumprir o mesmo lamentável destino.

Diz-se que os proprietários não desmatam nem limpam convenientemente os so- los. Pois, ainda que o façam, não intervirão sobre caminhos, que continuarão estreitos e de piso irregular, nem abolirão os muretes de pedra que separam parcelas e impedem manobras evasivas. Limparão os proprietários o solo da última casca de eucalipto e da última agulha de pinheiro, mas não passarão facilmente do replantio espontâneo para o ordenado, custos, ao que dizem, em que se esvairia o rendimento da última venda de lenha. Limparão solos, até pode ser que passem para um plantio mais arejado, mas não trocarão de moto próprio o pinheiro ou o eucalipto, por castanheiro ou nogueira. Em suma, mesmo em solo tendencialmente limpo, eucalipto e pinheiro alimentarão submissos uma chama revoltada.

Os montes são de quem são, e nós vivemos rodeados de montes, vale dizer de pinheiros e eucaliptos. Salvaguardada a titularidade da propriedade, ousaria dizer que os montes também são espaço público passível de fruição. Não me custa imaginar uma política que combinasse a segurança, por diversificação florestal, com uma acção estética sobre o espaço. Aliás, o ponto de partida já existe na cidade, onde encontramos carvalhos americanos, gingkos, vidoeiros, tílias, jacarandás, umas dando cor à primavera, outras conferindo brilho ao outono.

Em suma, se ninguém nega que os incêndios florestais constituem um sério problema, mal se compreende que não se avance na solução. Será porque as pessoas certas não estão a falar entre si? Será porque os mediadores não conseguem dirimir os conflitos em presença? Por mim, eu só gostava mesmo de assistir para perceber. Até porque, dito poeticamente, poderíamos viver rodeados por um jardim botânico, facto que não deixaria de constituir um atractivo cartaz adicional.

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