Correio do Minho

Braga, segunda-feira

As andanças do Martim

A pretexto de coisa alguma

Conta o Leitor

2015-08-14 às 06h00

Escritor

Diana Couto

I

Numa terra do norte, por detrás das grandes montanhas brancas, prosperava um povo, o povo das Terras Negras. De todos os invernos já passados, a neve nunca caía neste lugar, cobria as cidades e as aldeias circundantes, mas nunca chegava até às terras negras, e nestas terras vivia o Martim.
Era um menino cheio de energia e com a alma carregada de ânimo. O Martim tinha os olhos como as azeitonas pretas, os lábios desapareciam cada vez que fechava a boca e era alto para a idade.
O que mais gostava de fazer era andar de bicicleta pelas ruas da aldeia, mas nunca passeava sem a sua música. Levava sempre com ele um gorro de lã cinzento e uma pequena coluna de som, ligada ao seu MP3, para partilhar a música com os ouvintes das janelas ou portas abertas.
Sim, todos os habitantes da aldeia, por detrás das montanhas brancas, conheciam o Martim. Todos o observavam quando passava com a sua bicicleta amarela às riscas pretas, e todos simpatizavam com o menino da música. Todos os dias, depois do almoço, lá ia o Martim dar a sua volta. Quando se atrasava a aldeia ficava em alvoroço e ouvia-se um murmurar:
- Já nos roubaram o menino da música!
Mas a música acabava sempre por chegar aos ouvidos daqueles que a esperavam, e as bocas já não murmuravam mas cantavam.
Sim, todos conheciam o Martim, e todos sabiam que era o menino que tinha nascido na casa das palmeiras e das grades azuis, o menino que tinha nascido com uma complicação. Era o menino que tinha alguma dificuldade de aprendizagem, pois não acompanhava o ritmo dos outros rapazes da sua idade. Ficava sempre na turma dos mais novos, o lugar na sala de aula era sempre o mesmo e nunca ninguém se sentava na sua secretária. Todos sabiam que a secretária de madeira era do Martim.
Neste mesmo ano, o inverno foi gelado como era habitual, embora um pouco singular. O inverno não tinha coberto as montanhas com o seu tapete branco. Um ano diferente, seguramente. Sentia-se um desassossego nos habitantes das terras negras, os guardiões das grandes histórias do povo diziam que, no inverno, nunca a neve se separava das montanhas, dizia-se que os únicos anos em que teria deixado a descoberto a pedregosidade das montanhas teria sido aquando uma das várias ordenações Manuelinas.

II

Num calor intenso pairava o odor do suco de uvas, o mês de setembro estava a dar o seu último suspiro. A apanha das uvas tinha começado, imperava o silêncio nas ruas da aldeia e o trabalho fazia-se sentir nos campos. Algures na aldeia, uma janela abria-se, uma melodia escapava-se por entre as cortinas de linho e renda. Era o Martim que tomava o pequeno-almoço na sala de visitas.
O Martim estava agora no escritório, para onde o pai o tinha chamado, a divisão mais estreita da casa, e onde Martim não gostava de entrar. O pai pede-lhe para sentar-se no sofá perto da sua mãe, e expressa-se deixando escapar um ar agitado:
-Meu querido Martim! Temos uma novidade para ti. A tua idade já não permite a tua continuação na mesma escola, a idade obriga-te a seguir outro caminho e, sendo assim, terás que ir para a escola da cidade.
-Mas! Eu gosto desta escola! Não quero outra, contestou Martim.
-O Martim deverá deixar esta, para uma nova escola, a tua irmã já a frequentou e agora é a tua vez. Ela irá acompanhar-te amanhã no teu primeiro dia, acrescentou o pai um tanto inquieto.
O Martim sai do escritório angustiado e desamparado. Nesse dia não se viu o menino da música passar pelas ruas.

III

O autocarro chega à paragem da escola:
-Meninos! Vamos lá descer! Gritou o condutor da gigante máquina fedorenta.
Uns empurravam-se entre os assentos, outros soltavam risadas, avistava-se um grupo de rapazes no fundo do autocarro, as roupas que se lhes descobria falavam pela rebeldia precoce que emanavam. Estes prematuros insistiam em apertar os cabelos perfumados das meninas mais bonitas do grupo. Já metade do autocarro estava vazio, surgia então um menino ainda sentado perto de uma das janelas com o olhar mergulhado nas suas bochechas. Tinha um gorro cinzento de lã, o Martim.
A irmã tinha-o vindo esperar à paragem do autocarro como estava previsto, pois vivia agora na cidade.
-Anda buscar o teu irmão, Cassandra! Antecipa-se o condutor um pouco apressado.
Os olhos de Cassandra humidificavam-se continuamente de humildade, o cabelo cor de avelã acrescentava-lhe leveza, a sua postura transmitia temperança e como algo de nobre, possuía aquele ar que deixava a gente serena. Os demais procuravam-lhe a companhia pela sua perspicacidade, e era uma sonhadora, certamente. Levando o Martim pela mão, arrancou-o do seu assento. Martim sai da máquina viajante pesando os pés pelas escadas, e na sua desenvoltura final embate contra o grande contentor do lixo da paragem escolar.
-Cuidado Martim! Disse a Cassandra impaciente.
Chegam perto do portão da escola que já se encontrava aberto:
-Senhor Eneias! Que satisfação a minha por voltar a encontrá-lo! Exclama Cassandra.
-Menina da razão por aqui! Qual será o motivo das suas andanças? diz o velho do portão, transpirando saudade de tempos sossegados.
-Senhor Eneias, trago o meu irmão para conhecer os propósitos de entre estas paredes.
-Está a tocar! Vamos Martim!
O Martim é arrastado até chegar a um pavilhão cinzento, a porta da entrada estava aberta e, nesse instante, alguns rapazes passam pelo Martim a correr, adiantam-se a ele, entram pela porta de vidro e desaparecem na sombra do longo corredor que surgia. O Martim, um pouco acanhado, sobe as escadas que antecedem a porta da entrada, apaga-se na luz artificial. No fundo do corredor uma porta de madeira lascada indica: “CEF”.
-Martim, esta é a tua sala de aula, depois de cada intervalo deverás regressar a esta sala. No final de cada dia deverás ir para a paragem de autocarros da escola para, assim, regressares a casa. O teu novo professor dir-te-á tudo aquilo que deves saber.
Cassandra desfaz-se da mão do Martim, despede-se um pouco perturbada e caminha no sentido contrário até desaparecer na luz solar.

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