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As amigas da pureza

Falemos de felicidade

As amigas da pureza

Escreve quem sabe

2020-11-15 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Dona Pureza e suas amigas andam de palpitações, achaques e afrontamentos com o conúbio de Rio com Ventura, não que os arranjos de dois varões lhes provoque urticária, que com isso nada têm Pureza e afiliadas. Uma coisa, é uma coisa, outra coisa, é outra coisa, e se há matérias em que vale tudo, outras há em que isso está longe de ser verdade.
Sabemos nós o que as chiques reprovam, de modo que o omito por ganho de tempo. Registe-se, paralelamente, que Pureza e respectivo séquito tampouco achavam graça aos ademanes e risinhos licenciosos dirigidos por Rio a Costa, homem em vigorosa relação transitória com Sousa & Martins. Não aprovavam, as coquetes, que o arrivista se insinuasse com volteios de stripper, tudo dando contra nada receber, ao arrepio dos códigos da classe.
Homem que é homem nunca baixa as calças, clamavam, recuperando epigrama intemporal, esquecendo-se dos constrangimentos de obrar em pé. Deitava uns olhinhos, o Rio, espreitava a deixa, batendo na tecla do interesse público. Afiançava que, com ele, a vida iria lindamente, contra o relacionamento contra-natura de Costa com as falsas gémeas. Não é que o seu leito não batesse com o do Costa, ambos munidos de colchão EMA de nova tecnologia alemã. Não é, pois, que sem estranhezas não pudessem ficar à casa um do outro, onde quer que calhasse o serão, e despropositado fosse sair a altas horas da noite.

Mas gostos são gostos, e há-os muito torcidos. Que se boa cama teria, dizia o Costa, mais preferia uma tenda, uma cabaninha, e uma pelinha de suma-a-uma por enxerga, um saquito-cama, do que as fofuras de edredão de penugem de ganso. Que dizer: ele há gente assim, ele há gente que realça a aventura às monotonias do stato quo burguês.
Aqui-del-rei que o homem perfilha e nobilita o Ventura, aqui-del-rei que alforria o belzebu. Há de sair-lhe pela culatra, que o bom povo o castigará, enterrando um e outro, regando-os com piche e chegando-lhes mecha. Ó dona Pureza, os céus a oiçam, que o crime não tem precedente. Mas se para uma banda não pode, e para outra não o querem... E diga-me: não se coligaram, anos a fio, pelas alemanhas, a CDU e o SPD, digamos, o centrão, distribuindo cargos conforme o pendor eleitoral?

Espantou-me, mas estava Pureza a par. Ora, isso é na alemanha: o que para eles funciona, connosco nunca resultaria. Aplaudi-lhe a premonição: que poderia eu fazer? E mais, retoma a grande virtuosa: o PS e o PSD juntos é uma espécie de incesto, é uma vergonha da pior espécie. Nós precisamos de alternância. Quer dizer, replico, que precisamos de alternar de erro em erro, ao invés de prosseguirmos uma política de crescimento, de melhoria dos padrões de vida?
Abanou, a dona Pureza, vacilou. Preparava-me para lhe replicar que Abril continuou alegremente o Estado Novo, que se na cauda estávamos, dela não saíramos, quando, estremecendo, me diz que o que é preciso, mesmo, é erradicar a desventura dos populismos, e o próprio Ventura, porque se lhe damos palco ele vai por aí acima, e depois não há volta atrás.

Engoli, compus cândida figura e perguntei: ó dona Pureza, se o Ventura crescer, não é porque falhou, quem suposto era que não falhasse? E comecei a falar-lhe de França, dos Le Pen. Pois, desses fascistas, racistas e xenófobos, atalha a atenta Pureza. Lá está, digo, quanto mais os diabolizam, mais eles crescem, e sabe a dona Pureza porquê: porque de há décadas pavoneiam os francos as mesmas pechas, assim a modos como cá.
Ia eu bater-lhe as nossas, mas a Pureza adormeceu.
Aconcheguei-a, puxei-lhe um santinho do Costa. Acordará revirgindada.

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