Correio do Minho

Braga, terça-feira

Arte pública no espaço urbano

Três apontamentos

Ensino

2015-06-17 às 06h00

Ana Filomena Curralo

Em consideração pela questão da Arte Pública como manifestação artística levada a cabo num espaço urbano, rural ou natural - exterior à galeria e ao museu - há uma diversidade de posições que têm surgido, essencialmente quanto à perspetiva com que a prática artística é entendida. Conscientes dessas derivas, confinamos o presente tema à visão que vincula as manifestações de Arte Pública ao embelezamento e requalificação de espaços e ambientes.

Os anos 60 e 70 do século XX foram testemunhas de uma valorização do contexto, quer material, quer simbólico, como objeto artístico. À medida que o processo, a apropriação, a ação, o contexto, o quotidiano e a experiência eram valorizados, assistia-se paralelamente a uma interdependência crescente entre a obra e o local da sua permanência, quer interior e privado, quer comercial ou institucional.

O estatuto de obras enquanto objeto conversível em mercadoria foi colocado em causa e a discussão sobre o artista enquanto fonte e proprietário da produção artística ganhou relevância; passou a questionar-se o estatuto do museu, da galeria e da crítica de arte enquanto instituições capazes de legitimar e liderar o caminho que culmina com a comercialização de um trabalho.

A conjuntura que descrevemos emergiu em grande parte graças à migração do suporte da pintura e escultura para o locus espacial e temporal da instalação, onde o ambiente e o sentido de happening segregaram uma reconfiguração das relações entre o artista, a obra e o seu público. O frame temporal decorrido entre o “impressionismo” e o “cubismo” veio estatuir a autonomia da obra de arte e abrir caminho ao culto da interatividade entre espetador e obra.

Da mesma forma que Mondrian rompeu a moldura, e graças a esta rutura chegou ao fim a distinção entre o externo e interno, também público e ator passaram a situar-se agora no mesmo espaço, abolindo barreiras entre palco e plateia, numa interdependência em que o espetador pode acionar uma série de dispositivos pelo toque, pode cheirar, provar e, até, apalpar. Brancusi, por seu lado, eliminou o pedestal, dando passagem ao espetador, deixando-o aproximar-se da obra.

Numa apropriação de signos do espaço público, o artista empreende o jogo do confronto e da revisão de valores, das regras e dos códigos socioculturais. Cria micro histórias, microcosmos da imagem como indícios de um macrocosmos, o mundo, integrado por imagens coletivas. Trata-se de arte contextual, ou arte “in loco” e resulta de um processo de vivência individual.

Acresce a estas considerações a diluição da fronteira que separou as diversas disciplinas interventivas no espaço urbano. A anterior rigidez deu lugar a uma simbiose entre escultura, arquitetura e design que explica a vastidão de ocorrências em que encontramos esculturas arquitetónicas, arquitetura escultural, design como escultura ou vice-versa, para mencionar apenas algumas variações.

Assim sendo, a Arte Pública compreende também a cultura e as artes em toda a sua latitude de manifestações e passa a englobar, não só ciência e tecnologia, como também indivíduos cujo envolvimento ativo se compreende no seu enquadramento comunitário. O contributo da Arte Pública localiza-se não só no desenvolvimento da cultura artística, mas também nas práticas culturais dos cidadãos. A Arte Pública poderá promover a participação ativa e possibilitar o acesso de todos os cidadãos à arte, podendo ser também um agente unificador entre comunidades, servindo como força motriz na articulação entre instituições educativas e sociais.

Bibliografia
BENJAMIM, Walter (1992). Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. Lisboa: Relógio D´ Água Editores.
DUQUE, Félix (2001). El arte público y el espaço político. Madrid: Ediciones Akal.
LEWIS, Justin (1990). Art, Culture & Enterprise: the politics of art and cultural industries. Nova Iorque: Routledge.
EISNER, Elliot (2004). El arte y lá creación de la mente: El papel de las artes visuales en la trasnformación de la conciencia. Barcelona: Ediciones Paidós.
LYNCH, Kevin (1999). A imagem da cidade. Lisboa: Edições 70.

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