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Arrumar a casa

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Arrumar a casa

Ideias

2020-09-11 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Provavelmente, muitos conhecerão este tipo de arrumação – limpar toda a casa, retirando milhentas coisas para uma dependência, que se manterá entulhada, e obviamente desarrumadíssima. Ou uma outra variante – varrer para baixo dos móveis ou dos tapetes. E só um acontecimento muito fora do normal, exigente, forçado, obrigará a uma limpeza como deve ser, e finalmente à arrumação verdadeira da casa. Por vezes, a política em Portugal faz-me lembrar este tipo de estratégias aparentemente facilitadoras e apressadas da limpeza dos lares. Não se vê: logo não existe?

A pandemia tem sido particularmente gravosa nos lares de terceira idade, como em boa verdade não podia deixar de acontecer, dadas as características do vírus e a fragilidade dos seus utentes. E Portugal também não constitui exceção alguma nesse quadro, já que o mesmo tem ocorrido por toda a Europa. Mas é cada vez mais urgente olhar de frente para o problema da senioridade, e discutir qual ou quais as políticas sociais mais corretas.
Portugal é um país envelhecido. Segundo dados do INE, em 2018, a população residente era formada por 13,7% de jovens e 21,8% de idosos. E entre 2013 e 2018, a população jovem tem vindo sempre a diminuir, e a proporção de idosos a aumentar a um ritmo mais elevado. Na Região Norte, nesse mesmo período, passou-se dos 14,3% de crianças até aos 14 anos para os 12,8% , enquanto os maiores de 65 anos acresceram dos 17,9% para os 20,5%. De qualquer forma, é ainda na Região Norte onde o índice de dependência de idosos é mais baixo, se olharmos apenas para Portugal Continental.

Por outras palavras, talvez mais claras – em 2018, o índice de envelhecimento em Portugal era de 159,4 idosos por cada 100 jovens, atingindo-se o valor mais elevado no Alentejo, e o mais baixo nos Açores, a única região onde o número de jovens era superior ao dos idosos. Conforme a Figura 1 mostra, a projeção para os próximos 30 anos tenderá claramente a agravar esta situação.

A análise do porquê e das consequências muito prováveis desta projeção ficarão para a próxima crónica. A pandemia forçou-nos a olhar para as opções que, enquanto sociedade, colocamos à disposição dos nossos seniores.
O modelo que vamos seguindo em Portugal, de forma pouco estruturada e pensada digamos assim, consiste no alojamento em lares, residências seniores, designações mais ou menos sofisticadas consoante a mensalidade. No fundo, adaptaram-se os antigos asilos, adaptou-se a consciência social pressionada por condições de trabalho difíceis e por ren-dimentos baixos, e permitiu-se que o mercado desempenhasse o seu papel, re-servando ao Estado as funções de suplementar e regulamentar ao estilo helicóptero. Nada de extraordinário nisso; quando a procura do ensino superior explodiu, nos anos 80, o mercado criou dezenas de universidades e institutos dos mais variados, todos privados. Não tinham corpo docente, não tinham instalações de qualidade, não tinham bibliotecas nem qualquer tipo de investigação fazia parte dos seus objetivos; mas enfim, foi permitido, porque o setor público não tinha ainda capacidade instalada para absorver toda a procura. Em grande número vieram a morrer por conflitos internos que tinham a ver com a geração e distribuição dos lucros, e porque o Estado passou a exercer uma regulação mais eficaz.

Por razões diversas, conheço o setor dos cuidados a idosos. Há claramente de tudo, mas confrontado com uma procura cada vez mais significativa, com listas de espera longas, tudo isso sinaliza oportunidades de lucro. É assim que funciona o mercado. Claro que os lares ilegais abundam por todo o país, que se esperava? E que tantos outros funcionam com o mesmo objetivo, fazer dinheiro pois então. A formação qualificada em gerontologia e cuidados geriátricos é diminuta ou quase inexistente, a solidariedade e a simpatia, real, de quem lá trabalha confronta-se necessariamente com a falta de formação de todos, e com o recurso que nos é tão típico de resolver cada problema com uma solução qualquer de momento. O que eu vi traduziu-se numa tristeza imensa, e numa preocupação crescente com os anos que me restam.

A política social de apoio à terceira idade tem que ser diferente, muito mais complexa e exigente do ponto de vista das competências. O peso relativo do setor vai ser cada vez mais elevado, e terá de ser enquadrado pela sociedade civil, pelo governo central e pelas autarquias. Tradicionalmente, em Portugal, encaramos as câmaras municipais como reguladoras de infraestruturas urbanas, mas devem ser muito mais do que isso.
Estão mais perto das pessoas, conhecem melhor circunstâncias e culturas locais, a sua intervenção na oferta e regulação da prestação de cuidados sociais a idosos é fundamental. Mantendo as pessoas em casa enquanto for possível – fornecendo alimentação e apoio, envolvendo-as em atividades de lazer em centros de dia, estimulando atividades físicas e lúdicas, equipas de visita médica e de enfermagem regulares.

E para os casos mais complexos e mais graves, para as demências de toda a ordem, cada vez mais presentes à medida que a idade vai avançando, residências enquadradas por uma legislação rigorosa e exigente no que respeita à prestação de cuidados de saúde. São apenas ideias; arrumar tudo para um outro quarto, e deitar fora a chave não vai resolver.

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