Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Ardido - Ardente

Escrever e falar bem Português

Ideias

2017-11-26 às 06h00

José Manuel Cruz

Pugno por um Portugal ardente que suplante um Portugal ardido, combustível; pugno por um Portugal que arda de paixão a essoutro que se consome em dor doida, ora nos lumes brandos do laxismo, ora nas labaredas cavalgantes do fogo feio, do fogo que não quer ser metáfora de um ardor, de empenho posto na mais pequenina das coisas que se faça num nenhures, fora de qualquer roteiro Michelin de estrelas-bem. Há um Portugal anónimo, ainda de sachola ao ombro, entre a leira e o lar, um Portugal de «boas-tardes» dadas sem cálculo ou reserva a quem calhe diante dos olhos, e há um Portugal macaco, de lantejoulas, de falinhas mansas, de causas de ocasião, de coisas que se trazem a lume para saturar o espaço comunicacional.

«Ouvir Portugal!» Derrotados, na oposição, arredados da boa cantina, muito ouvem o Portugal que não escutam, o Portugal que, verdade dita, não é para escutar, o Portugal que desdenham, esses, os mesmos, que venturas de votos e coligações levam rotativamente ao Poder. E sempre aparece quem fale, para marcar pontos, para deixar recados, para brilhar com fogos subjugantes de efeitos especiais, com labaredas frias de faz-de-conta, manuseadas por mão calhada com extintor. Ai que se desagrega, Portugal, que se suicida, diz o autarca que irrompe, piroclástico, da fumarola da regionalização.

Corre subscrição pública para pedra tumular de belo efeito: «Aqui jaz o Terreiro do Paço.» Acabemos com o centralismo, antes que o dito acabe com Portugal, resume, epigramático, a estrela de província com estaleca de primeira divisão. Discursa, empolgado. Sabe-se de boa voz e excelente dicção, porte e figura no seu todo favorável para os necessários da ocupação. Contra o usual copo de água, tem, à mão, uma generosa fatia de bolo-rei, com um infarmed à laia de brinde. Até aí, tudo bem, que não há razão que determine que um organismo de frente não possa estar sediado na Invicta. Mas ai que lhe foge a língua, quando sugere que nenhum ónus, nenhum calvário há de ser visto em tão glorioso êxodo. Já os sinto, aos infarmedeiros, em longa caravana com os filhos pela mão, guiados por um Moisés tripeiro, resgatados a cativeiro alfacinha, na demanda da Terra Prometida.

Parece uma jogada saída da saga «muda um nico, para que nada mude, no fundo». A bom exemplo chegara, ao drama de jovem criatura que não encontra emprego em Bragança, e que desembestar tem para um litoral ou para uma estranja de maior apelo. De Portugal se fala na ressaca dos fogos. Portugal entregue a arborícolas de facílima ignição, Portugal estagnado, fossilizado, carente de sangue novo, ou meio-velho, mas ainda de vitalidade recomendável, para desenvolver, para cuidar esse interior, esses montes e colinas de suado sustento. Uma sugestão: e que tal uma agência eventual, mas coisa que funcionasse, que não fosse só para uns empreguitos para a malta do costume, plataforma que agilizasse um programa épico, à moda de muitos passados: «Eu, colono!».

Do rés-do-chão da minha escrita eu sei que faria sentido, eu sei que daria resultado. O drama, como sempre, está nos detalhes - que não são só de verbas, ou delas exclusivamente. O drama é que as boas ideias, essas de arrojo, visão, golpe de asa, requerem mais célula cinzenta que cédula de banco emissor. O drama é que, à falta da primeira, de hábito se abusa da segunda, no exercício governativo, e é por isso que empacotar tarecos e cacarecos, e mandá-los para o Porto, é um é-pr’a-já. Não pedirem, eles, um joguinho do monopólio ao Menino Jesus.

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