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Aquela cativa que nos tem cativos

Viagem a Viena

Aquela cativa que nos tem cativos

Ideias

2020-04-28 às 06h00

João Marques João Marques

Quem diria, há 46 anos, que aquele dia de superação nacional haveria de ser comemorado por um país inteiro enclausurado à força (do vírus). A suprema ironia de celebrar a liberdade em pleno estado de emergência não terá escapado aos protagonistas da revolução.
Ver inúmeros portugueses, entre os quais Vasco Gonçalves, à janela, usando a liberdade da voz para lutar contra o confinamento do corpo, deu uma dimensão lírica, porventura inaudita, às celebrações do 25 de Abril. E nem a desafinação terá sido fator relevante para colocar este ano como um dos que mais simbolismo e significado conferiram à data.
Ouvimos recentemente os agentes políticos mais relevantes a declarar que a liberdade futura conquista-se em abril. Parecemos estar fadados a encontrar neste mês o espaço de esperança que outros povos vão distribuindo por outras datas.
Percebemos, ainda assim, como a noção minimalista de liberdade não resiste a um microscópico ser. Se a clausura domiciliária obrigatória não corresponde a qualquer conceito de liberdade, há que notar que a dimensão da liberdade de expressão mantém-se saudável, se bem que entorpecida pela impossibilidade de ocorrerem manifestações ou ajuntamentos de qualquer tipo.
Conseguimos comunicar, trocar ideias, trabalhar, comprar e vender, ainda que à distância. E é também isto a liberdade. Refletir sobre o que significa a revolução dos cravos no contexto atual é justamente perspetivar a plena dimensão da sua conquista maior.
A pergunta que se deve colocar, na minha opinião, é, pois, se, após todos estes anos, fomos capazes de conquistar a liberdade de ser ou a mera possibilidade de existir?
Esta questão liga-se às difíceis opções que, como comunidade, tivemos de enfrentar.
Que não restem dúvidas que os últimos dois meses foram um laboratório para a democracia em todo o mundo. Um hiato em que se propuseram, discutiram e testaram inúmeras soluções para combater um inimigo comum, algumas tão perigosas que fariam corar de vergonha a temerária mente de muitos ditadores da história.
Este laboratório foi útil para descobrir até que ponto estamos dispostos a prescindir de Abril para o conforto de pensarmos que tudo fizemos para salvaguardar a vida humana. Claro que a vida humana tem de ser a prioridade cimeira de qualquer comunidade que se preze, mas até na sua defesa, e para respeitar a dimensão fundamental de dignidade que o conceito de vida incorpora, há que saber estabelecer limites e fronteiras para o que consideramos admissível.
Porque, para mim, a liberdade de Abril é a liberdade de ser e não meramente a de existir, foi útil perceber que há países que não se importam de prescindir de quase toda a dignidade para garantir o reduto mínimo da existência. Há latitudes onde pouco importam as constituições (quando existem), as leis e os direitos e há quem, entre nós, até admire esses países.
Felizmente, porém, a generalidade das nações da União Europeia, incluindo a nossa, não se têm esquecido do significado da liberdade de ser. E foi por isso que a tensão entre a vontade de responder imediatamente aos problemas e a necessidade de acautelar procedimentos democráticos não se resolveu pelo perecimento dos direitos fundamentais dos cidadãos.
Apesar das falhas e dos inúmeros voluntarismos menos ponderados a que fomos assistindo, julgo que estes últimos tempos têm demonstrado que soubemos interpretar a essência do que foi conquistado em Abril. A responsabilidade que temos demonstrado como povo e a relativa serenidade como se tem gerido o contexto de crise sanitária, económica e social são a prova de que, apesar de por vezes não parecer, “os meninos à volta da fogueira” aprenderam “o que custou a liberdade”.
Isto não significa que não restem muitas arestas por limar e que não existam ameaças mais ou menos obvias à liberdade de ser, agora e no futuro. Pelo contrário, ao longo desta crise tem-se assistido a sugestões verdadeiramente assustadoras de medidas desproporcionadas, sobretudo na vertente da utilização de meios tecnológicos. Só que elas têm, até ao momento, esbarrado no bom senso de quem decide e na legalidade do Estado democrático, o tal que Abril nos legou.
A liberdade, que tanto tempo esteve cativa de um punhado de gente, tornou-nos definitivamente cativos dos seus encantos. Ainda bem.

“Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E, pois nela vivo,
É força que viva.”

[trecho do poema “Endechas a Bárbara Escrava”, de Luís de Camões]

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