Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Aprendizado próprio para delicadezas

‘Tu decides’ e o AE Maximinos move-se pela cidadania

Conta o Leitor

2018-08-13 às 06h00

Escritor

Marta Néri Coêlho

Agora pronto, a casa era toda sua; o tempo, todo seu.
Sentia uma alegria surda, medrosa de dar as caras.
E se tudo não passasse de ilusão?
Não. O melhor mesmo era ir aos poucos.
Já fora tão gratificante a conquista da liberdade!
Vivera esse momento sem qualquer reserva: com riso, falação, planos, nó na garganta de vontade de chorar... Enfim, com toda emoção a que tinha direito.
Surpreendia-se redescobrindo prazer nas coisas mais triviais: enxugar colher, aprumar quadro meio torto na parede, ouvir sua própria voz na leitura alta que fazia de poemas de Neruda, Cecília Meireles, Drummond, Adélia Prado; quem lhe caísse às mãos.
Lia-os como se bebesse aos sorvos, compassadamente:
... “Puedo escrebir los versos más tristes
Esta noche. Escrebir por ejemplo:
‘La noche está estrellada, y tiritan,
azules, los astros, a los lejos.’”
Por onde andará o disco do poeta chileno comemorativo de sua passagem pela cidade?
Nunca mais o escutara...
“Cacos da vida,
colados,
formam uma estranha xícara.
Sem uso,
ela nos espia do aparador.”
Quem, além de Drummond, sabe falar tão lindo e simples, da culpa que vamos acumulando pela vida, cujos pedaços, colados, formam nossa identidade?...
Incrível como já esquecera esse hábito, tão comum em tempos passados, de ler recitando seus poetas preferidos.
Agora, a casa, antes tão vazia, dava-lhe a sensação de plenitude com minguadas peças que lhe ficaram: cadeira de balanço, uma pequena mesa, banco tosco, a cama. O armário? Esse não podia sair. Era embutido.
Mesmo que nada disso lhe tivesse restado, sabia agora, garantira o fundamental: o som, os discos, os livros. Era precisamente aí onde estava sua sustentação.
Será que sem querer chegara ao essencial da vida? De sua vida, pelo menos?...
Não era momento para introspecções tão profundas.
Passara pela indiferença, pelo desespero, pela autocomiseração, pela euforia. Esse era o momento da consciência clara.
Do que precisava, exatamente, era levar tudo, dali em diante, de forma mais solta, mais leve, menos judiciosa, menos precisa.
Um pouco de irresponsabilidade, pensou, era do que carecia. Iria descobrir que, para assumir essa nova postura passaria por doloroso aprendizado talvez, mas estava disposta a palmilhá-lo.
Apostara consigo mesma que seria feliz. E antes disso, alegre.
Não a alegria do riso fácil, mas um estado de graça com a vida. Aprenderia.
Nem sabe se pode, ou até mesmo, se deve chamar o que vive de equilíbrio. Termo tão comprometido com seu modelo de vida anterior, onde, antes do sentir, do prazer, estava a obrigação, o formal, o dever. Não que fosse fazer apologia do anarquismo. Também não era isso o que almejava. Não queria extremismos.
Queria, sim, viver de acordo com seu deleite.
E sua satisfação comprazia-se com coisas muito simples.
Precisava se dar um espaço; tudo aconteceria ao seu tempo, embora não estivesse fechada ao amor, às novas experiências.
Por enquanto, era viver, e viver, e viver.
“Explicação de Poesia sem Ninguém Pedir”, poema de Adélia Prado, chega-lhe inteiro à lembrança:
“ Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou sentimento.”

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