Correio do Minho

Braga, sábado

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Aprender filosofia com a ficção histórica televisiva

Decisões que marcam

Ideias

2018-02-02 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Durante o verão passado a RTP 2, sem dúvida o melhor na programação cultural televisiva nacional, passou as seis primeiras temporadas da série principiada em 2009 Un village français. A derradeira temporada tem vindo a ser exibida nas duas últimas semanas ao final do dia. Sendo sempre subjetivas as considerações deste tipo, ouso dizer que foi a melhor série de ficção histórica em televisão que vi até hoje.
O argumento é de fácil descrição: em meados de 1940, a (inventada) aldeia de Villeneuve, algures no Jura, perto da fronteira entre a França e a Suíça, vê chegar o exército alemão, que aí permanecerá até ao verão de 1944, altura em que se iniciou a Libération apenas concluída em meados do ano seguinte; ao longo de 72 episódios entramos no quotidiano de vulgares franceses do maire Daniel Larcher, dos maquisards Marcel Larcher e Marie Germain, do patron Raymond Schwarz, do maître d`école Jules Bériot, do chefe do Sicherheitsdienst (serviço de segurança) nazi Heinrich Müller, etc. e estabelecemos uma relação empática com os seus pequenos e grandes dramas existenciais num contexto excecio- nalmente desafiante pela sua complexidade, ambiguidade, incerteza.

A sétima temporada, que hoje termina, foca-se no período imediato do pós-guerra, particularmente no ano de 1945, no julgamento dos colaboracionistas pró-Vichy, na adaptação aos libertadores-ocupantes americanos, nas lutas entre gaullistas e comunistas para impor a nova ordem.
Interessantemente foi em outubro desse mesmo ano que Jean-Paul Sartre proferiu a célebre conferência, depois vertida em livro, O Existencialismo é um Humanismo. Ela resultou de uma necessidade sentida pelo filósofo de clarificar, desde logo para si mesmo, o sentido de uma filosofia da existência, que antes havia enjeitado como absurda. De caminho, todavia, percorre nessa sua obra um conjunto de temas encenados na série da autoria de Frédéric Krivine, Philippe Triboit e Emmanuel Daucé. Uma aldeia francesa deve ser vista e revista, não somente pelo seu excecional valor educativo relativamente a um período marcante da história contemporânea, mas também porque poderá constituir um notável instrumento didático para apoiar o estudo da filosofia do existencialismo, que tanta influência teve dentro e fora da comunidade académica nacional entre as décadas de 1960 e 1980, antes de ter súbita e inexplicavelmente esquecida.

Na série produzida pela France 3, três temas maiores da reflexão existencialista à la Sartre encarnam na ação de alguns personagens em particular. Desde logo o humanismo exibido pelo médico da aldeia Daniel Larcher, a sua capacidade para na circunstância onde falta uma pauta de valores clara para orientar as decisões jamais perder de vista a dignidade de cada ser humano e nunca abdicar do seu otimismo em relação ao futuro.
Depois, a questão do sentido da História num contexto em que Deus parece ter abandonado os seus filhos que Daniel Larcher, o irmão militante comunista de Daniel não cessa de colocar e tentar responder até ao momento em que enfrenta o pelotão de fuzilamento, sem nunca deixar de acreditar que a essência do ser humano radica na responsabilidade de (re)criar permanentemente o seu modo de existir.
Por fim o tema da angústia vital, a roçar o desespero, contraída por Lucienne Borderie, que casou por conveniência com o diretor da escola local Jules Bériot, após ter engravidado de um soldado alemão, Kurt, que nunca deixou de amar e que sempre soube ter sido assassinado pelo seu ciumento marido. A ver para aprender.

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