Correio do Minho

Braga, sábado

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Aplausos para a destruição das muralhas do castelo de Braga

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2014-11-09 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Quem ocupa cargos de responsabilidade pública deve ter, entre outras qualidades, sensibilidade e ponderação nas decisões que toma. O exemplo que hoje aqui darei é bem demonstrativo disso.
Tudo aconteceu há 109 anos em Braga, aquando da destruição das muralhas que rodeavam a atual Torre de Menagem e que constituíam um castelo fortificado que já vinha do tempo do Rei D. Dinis.
A atual Torre de Menagem estava rodeada por uma muralha, no interior da qual funcionava a cadeia de Braga.

Perante a possibilidade de destruição destas muralhas, formaram-se duas correntes de opinião: uma, que defendia a destruição total das muralhas, e outra, que defendia simplesmente a manutenção e reconstrução desta.
Os que defendiam a destruição das muralhas do castelo afirmavam que as “construções antigas, só por que o são, tornam-se intangíveis?”. (1) Acrescentavam mesmo que os edifícios não são todos iguais. Ou seja, tanto “importa o castello de Braga como o castello ali da visinha cidade de Guimarães? Valem eles tanto como os Jerónimos ou a Batalha”? (1)

Os que defendiam a destruição do castelo chegavam mesmo a usar argumentos que acabaram por convencer a população, pois afirmavam que, se fosse necessário “destruir o nosso castello para atravessar a linha férrea hesitaríamos em destruil-o?”, ou ainda, se fosse necessário destruí-lo para “fazer brotar de seus alicerces a agua de que carece a cidade hesitariamos em destruil-o? Nem um instante!”, afirmavam.

Os críticos atacavam inclusivamente os arqueólogos, por estes defenderem a manutenção do castelo de Braga. E atacavam-nos de forma violenta, que questionavam se fazia “parte do merecimento a imundice em que jaz a torre, e a imundice e descalabro em que tudo o mais se encontra em volta!”? (1)

A poucos metros da torre encontrava-se o gabinete do diretor da prisão de Braga, a quem alguns perguntaram se tinha alguma ideia quanto ao número de turistas que tinham visitado o castelo de Braga, ao que este terá respondido que, nos últimos anos, não teria visto por ali um único!
A pressão para que fosse destruído o castelo de Braga, e com isso fosse eliminada toda a imundice que o circulava, aumentava de tal forma, que o vereador da Câmara Municipal de Braga, Victor Brandão, propôs, em sessão da Câmara Municipal, que todo o castelo fosse fotografado em vários ângulos e posteriormente conservadas as fotografias nos arquivos da Câmara Municipal, para que as gerações futuras tivessem uma prova da existência do castelo e da forma como se encontrava à data da sua destruição.

Os que defendiam a manutenção do castelo de Braga chegaram mesmo a propor que fossem construídas salas para que fossem conservados os arquivos que se encontravam espalhados, alguns deles em risco de se perderem. Dessa forma, “Braga poderia converter o seu castello n’uma Torre do Tombo”. (2)

A maior indignação quanto à destruição das muralhas do castelo de Braga veio de Lisboa, do Conselho de Monumentos Nacionais. As conclusões saídas da reunião desse conselho, e que foram publicadas no jornal “Diário de Notícias”, de 14 de Outubro de 1905, defendiam: que do castelo seja retirada a cadeia de Braga, pois esta funciona como posto de infeção; que sejam conservadas duas torres bem como o lance de muralha entre elas; que se aproveite estas duas torres para lá funcionar um museu; que se restaure a Torre de Menagem, e ainda que se ajardine a área de terreno que a rodeia. De referir que este parecer do Conselho de Monumentos Nacionais foi enviado ao Governo.

Apesar desta avaliação, a demolição das muralhas do castelo de Braga avançou mesmo, tendo para isso o Governo colocado à disposição “uma verba importante, crêmos que de dois contos de reis, para fazer face a essas despezas de demolição e remoção de material”. (3)

A cerimónia da entrega do edifício da cadeia da Câmara Municipal de Braga ao Estado (na pessoa do diretor das Obras Públicas do distrito) realizou-se no dia 15 de Novembro de 1905. Nela participaram o presidente da Câmara Municipal, o Governador Civil, o Administrador do Concelho e a ela associaram-se várias instituições bracarenses, onde não faltaram muitas bandeiras, quatro bandas de música e milhares de populares!

Às 13 horas desse dia, o presidente da Câmara Municipal entregou os documentos referentes ao terreno do castelo de Braga ao diretor das Obras Públicas, começando de imediato uma coluna de pedreiros a demolir a parte sul das muralhas do castelo. Para Manuel Monteiro (4), desta forma se cumpriu a “solemnidade official da inauguração da selvageria sem nome”.
Este início de demolição provocou um enorme entusiasmo popular, que saudavam e aplaudiam o início da destruição destas muralhas! A atitude destes bracarenses indignou Manuel Monteiro que os descreveu como tendo uma “curiosidade lôrpa do povoléu indígena…”. (4)

A destruição das muralhas do castelo de Braga demorou cerca de meio ano, tendo terminado em Maio de 1906. Curiosamente, quatro anos depois, o decreto de 24 de Junho de 1910 classificava a Torre de Menagem “Monumento Nacional”.
Caso existissem, ainda, essas muralhas, em pleno centro histórico, seriam hoje uma das grandes riquezas patrimoniais e turísticas de Braga.
1) Jornal “Correio do Minho”, de 5 de Setembro de 1905;
2) Jornal “Commercio do Minho”, de 19 de Outubro de 1905;
3) Jornal “Correio do Minho”, de 10 de Novembro de 1905;
4) N.º 13, 21 de Maio de 1906.

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