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Apenas palavras

Regiões, Áreas Metropolitanas e CIM no Relatório da Comissão

Apenas palavras

Ideias

2019-11-07 às 06h00

José Agostinho Pereira José Agostinho Pereira

Na área das relações humanas, os caminhos do futuro, enquanto ainda eram passado, abriam a perspetiva de um admirável mundo novo. Realizada a marcha do tempo, o que temos é de facto um novo mundo, mas não propriamente notável. As inúmeras redes facilitadoras de comunicação, que tanta expetativa criaram ao nível de interação entre pessoas, revelaram-se afinal boas para os negócios, mas francamente más para a elevação da humanidade. É estranho que algo que foi feito para facilitar as relações interpessoais – o Facebook por exemplo nasceu para ser uma rede de amigos -, esteja a ter o efeito contrário, aumentando as distâncias entre as pessoas, gerando mais intolerância, mais incompreensão, mais ódio e mais inveja. Em contraponto, nada fez tanto pela divulgação de negócios, pela venda de marcas e pela promoção de produtos como as redes sociais. Uma boa prova disso é o aparecimento de novas profissões associadas ao marketing e à influência digital e a importância que lhes é dada.

Podemos procurar convencer-nos do contrário, mas um olhar rápido pelas reações aos mais triviais posts publicados por órgãos de comunicação social nas redes, evidenciam aquilo que estou a afirmar com clareza. Nunca se utilizou a ofensa gratuita com tanta facilidade. Nunca a intolerância e a incompreensão foram tão orgulhosamente expostas. Nunca a estupidez teve tanto palco. Claro que podemos tentar convencer-nos de que também nunca tivemos tantos amigos e que nunca falamos tanto com eles.
Mas será que é mesmo assim?
Claro que não! Os amigos são os de sempre ou aqueles que a relação interpessoal vai conquistando. Apenas.
O problema é que não conseguimos ser moderados. Temos tudo e mais alguma coisa e não somos nada daquilo que dizemos que somos ser.

A humanidade não sabe abrandar, muito menos parar. Temos tecnologia, queremos mais tecnologia. Temos redes sociais, queremos mais redes sociais. Viajamos depressa, queremos viajar mais depressa. Temos público, queremos mais público. Vivemos velozmente, queremos acelerar ainda mais, e nem sequer damos conta do que estamos a perder e a estragar. E que, basicamente, é a capacidade de saborear o que temos, de desfrutar das pessoas e mesmo dos bens materiais que conquistamos. Não fossemos tão sôfregos e os recursos naturais não se delapidavam com tanta facilidade, porque não consumiríamos tanto e sempre em crescendo, assim como as próprias relações humanas sempre teriam alguma hipótese de ir além da epiderme.

Antecipo que o grande desafio, que equivalerá à grande dificuldade, é aprendermos a sermos regrados, e já agora sensatos. Não adianta apregoar aos quatro ventos que somos isto ou aquilo se não o formos de facto. De nada vale autoapresentarmo-nos como intransigentes defensores dos valores humanos, ou da igualdade, ou do meio ambiente, se não soubermos abrandar ou até mesmo parar, pelo menos refletir.
Todos conhecemos pessoas que saem à rua a gritar por mais ambiente, mas com a mesma facilidade se esquecem de fazer separação seletiva do lixo ou de escolher as escadas em detrimento do elevador. Na verdade, não são ambientalistas.

Da mesma forma que quando encontramos, a coberto da cortina digital, com um insulto proferido contra uma mera opinião expressa não estamos a falar com alguém tolerante e sensato, por mais que esse alguém o diga e o deseje.
O que acontece é que muito daquilo por que a sociedade diz que luta e que é, assenta tão só e apenas em mera estrutura discursiva, não tem tradução prática. O mundo que chega até nós é cada vez mais isso mesmo: uma gigantesca estrutura discursiva. Apenas palavras. ?

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