Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Aos AVÓS

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2013-08-17 às 06h00

Escritor

José Alberto Leite

(Cenário)
Num dia de calor, à tardinha, o velho Gomes, no seu quintal, debaixo da copa de um castanheiro mais velho que ele, sentado, apanha a fresca e a brisa do fim do dia. Com a tigela na mão, também ela tão velha quanto os seus ossos, sua companheira desde que entrou na idade adulta, e que serve para, de quando em vez, beberricar um tinto “carrascão” oferecido por um dos seus herdeiros. Tigela essa em que afoga as mágoas e que o faz esquecer as agruras da vida e da doença, mas que noutras ocasiões o faz recordar os bons tempos de meninice e da vida vivida com a sua Maria, a qual, infelizmente, já partiu para “outros mundos” mas contribui com a sua parte para que o sangue do seu sangue continuasse a circular por outros seres por quem tanto se sacrificou, tanto ama e tanto quer bem.
Eis que batem fortemente ao portão do velho casarão onde habita como um modesto caseiro de uma quinta que não é sua, mas da qual tirou o sustento para alimentar o “rancho” de filhos com que o “Altíssimo” o agraciou a si e à sua companheira e que são, ainda hoje, a ajuda e a mão-de-obra para o seu trabalho, na lavoura.
Na sua voz rouca de homem já muito vivido, pergunta:
- Quem lá vem? Quem está desse lado?
- Sou eu avô, a tua neta, Joana.
Então, com algum custo por causa das artroses nos joelhos e da ciática que o vêm atormentando, pega na muleta, levanta-se e lá se desloca até à entrada para abrir o portão que range por todos os lados e que por isso mesmo anuncia que há “visitantes” a entrar no velho casario.
Lá está uma das suas netas, rapariga entrada na adolescência, simpática, de sorriso fácil, uma aplicada estudante que sonha um dia “ser amiga dos animais”, pois foi criada no meio deles já que naquela casa havia e ainda há todo o tipo de bicharada doméstica, desde o asno “Garanhão” até aos muitos e muitos gatos, passando por exemplares do gado caprino, bovino e até cavalar, para já não falar de aves de capoeira. Também há cães, mas desses a neta Joana não gosta mesmo nada, tem para com eles cinofobia.

(Objetivo)
A Joana, assim se chama a miúda, durante o sono, teve um sonho… e as “Almas do seu Sonho” pediram-lhe que ela “homenageasse todos os Avôs e Avós do Mundo.
E, então, ela meditou, cogitou, ponderou, planificou e decidiu.
- Vou ouvir o meu velho Avô a contar pela enésima vez a história da sua vida!!! Os velhotes estão sempre a repetir a mesma coisa, mas hoje vou ouvi-lo com mais atenção…
(Desenvolvimento da Ação)
As próximas linhas são pois a história de vida de um Avô… o meu Avô…através dele honra-se e homenageiam-se todos os “sabidos e vividos da vida”… todos aqueles que já são Avós.
O pai do meu pai gosta sempre de repetir:
- Minha neta, nasci nesta pequena aldeia, no tempo da implantação da República. No tempo em que as casas tinham como telhado a palha e o colmo. Aqui na terra éramos muitos rapazes e raparigas. Não havia nada, a não ser o trabalho duro, todos os dias, no campo e a missa dominical rezada pelo Prior Alvarinho que coitado aproveitava e confessava o povo. Não havia infância … todos chegamos a homens sem sermos crianças.
No meu tempo não havia o direito a ser criança… havia o direito e a obrigação de trabalhar e ajudar os pais a trabalhar a terra. A vida era muito difícil, os de agora queixam-se e não imaginam, nem sabem quanto felizes são por terem e usufruírem dos bens que possuem, mesmo que esses bens estejam hipotecados “ao prego” dos bancos.
E dá uma sonora gargalhada, ele que criou a filharada sem pedir e dever um tostão a ninguém. E que por isso gosta de se vangloriar e gabar dos seus sucessos e proezas realizados nas asperezas da vida. E que vida!!!
- O meu Avô, às vezes, é como os caçadores, gosta de exagerar nos seus feitos. O meu Avô é assim mesmo, transparente, aberto e com o feitio que tem não consegue enganar ninguém. É um Avô patusco, muito terno e meigo, apesar de ser um homem muito grande, muito forte, com umas mãos enormes calejadas pela dureza da enxada. Ao seu lado eu sinto-me segura e recordo os tempos de outrora em que pegava em mim, me rodopiava e eu olhava tudo de lá cima cá para baixo como se estivesse no meio das nuvens… que saudades… que belos tempos…
Ele é uma história viva dos tempos de “antanho”. Continuemos a ouvi-lo…
- Naqueles tempos ganhava-se muito pouco, ou mesmo nada… até se dizia que se ganhava só uma côdea. O meu pai, teu bisavô, tinha de fazer uma dúzia de quilómetros para ir trabalhar nas obras. E lá ia com a “moenga” dentro da marmita para enganar o “bucho” na hora da refeição. Mas, também te digo, antes de sair de casa comia logo umas “sopas de burro-cansado” que lhe davam força para todo o dia.
A alimentação, naqueles tempos, era à base daquilo que saía da terra, como as couves com feijão e batatas. De tempo a tempos, mais em dias de festas, também se comiam umas sardinhas assadas, sendo que uma sardinha dava para duas pessoas. Nas grandes quadras, em especial, no Natal, havia uma “racha” de bacalhau com batatas para celebrar o nascimento do “Maior”…
Interrompi-o… Eu sei que ele não gostava muito… mas…assim… também aproveitou e “lavou” a tigela. E ouviu-me, mesmo sabendo eu que ele já está um pouco surdo. Perguntei-lhe:
- Avô, as pessoas não saiam da aldeia? Não havia escola? Nem festas na aldeia?
- Só se saía da aldeia a pé, de burro ou num carro de bois. Só andavam a cavalo o Padre e o Regedor, que era o “Juiz de Paz”. Esses eram uns Srºs… que “Deus os tenha em eterno descanso” que eram cá uns figurões de primeira, então do padre nem falemos!
Meu Avô, parou a sua narrativa… por motivos de esvaziamento da bexiga…
- Onde íamos, Joana? Ah, já sei! Na Escola… então era assim… A maioria dos rapazes ficavam pela 4ª classe e as raparigas só pela 3ª pois para irem “servir” chegava bem e quanto menos soubessem, melhor. Era ler, escrever e contar. E, nada de brincadeiras pois a Dª. Gertrudes, velha regente da aldeia, tinha lá “uma cinco olhinhos” que funcionava a toda a hora. Estudar fora das aldeias ficava muito caro, pelo que a maioria das famílias mandava os seus filhos para os seminários, considerados os colégios dos pobres, mas depois eles fugiam para a “vida civil” quando começavam a ver umas moçoilas espigadotes e nem à terra vinham. As crianças e os jovens sempre arranjavam, mas só ao fim de semana, tempo para se divertir. As crianças faziam os seus próprios brinquedos. Os rapazes faziam fisgas, piões e bolas de trapo. As raparigas divertiam-se com bonecas de trapos, cantigas, danças de roda e jogos de chão, como: a macaca. Os rapazes procuravam namorar as raparigas quando estas iam à fonte, de cântaro à cabeça, ou quando iam à horta buscar hortaliças para as refeições. Foi assim que eu namorei a tua avó e com ela comecei a fazer “alguns pecados”.
E volta a soltar uma boa gargalhada… mas, passados uns breves momentos… solta uma lágrima de recordação daquela que foi a sua companheira de uma vida…
Havia ainda muito, mas mesmo muito, para ele contar, mas também eu comecei a chorar ao ver o “meu velhinho”, o meu ídolo, a lagrimejar… um dia voltarei a ouvi-lo…prometo contar-vos mais vida da vida do meu Avô, um Avô igual a tantos e tantos outros.

(Conclusão)
Avós:
Podeis chorar pelos anos que não vivestes, pelas coisas que não tivestes, pelo pouco que gozastes... mas não há melhor tesouro na vida que ter, ver nascer e ajudar a crescer os netos e… um dia… poder ouvi-los dizer: - A minha Avó é o máximo! Ou, Tive o melhor Avô do mundo!

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