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Ao pé do muro

As bibliotecas e as leituras no verão

Ao pé do muro

Escreve quem sabe

2024-06-23 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

As eleições europeias de há duas semanas tiveram um desfecho curiosíssimo na Alemanha – a ocidente votou-se preferencialmente nuns, a oriente, noutros. Quem tenha hoje menos de 30 anos poderá não captar a subtileza. Porém, quem seja entrado na idade, reconhe- cerá na recente distribuição do escrutínio a antiga divisão entre a RFA e a RDA, sendo que do lado de lá da cortina-de-ferro se votou na AfD, num partido tão à extrema da direita que, com eles, nem a rainha malvada da Le Pen se encontra de boas relações.
Eu sei que as explicações simples são de fraca mecânica, mas tanto a elas se presta quem denuncio, que hoje me apetece entrar no coro. Assim, como é que se faz que na tão civilizada Alemanha, que nos deu Ângela, que nos dá Úrsula, numa Alemanha que tão de pronto distribui lições transversais de ética, pois que no seio desse embalado paraíso refloresça algo que nós nem num museu de horrores queremos exposto?
Ora, qual é a explicação simplista que quero brandir? Resposta que sem mais enlaço com fremente pergunta: que muito se tem vindo a fazer ao arrepio do que uma democracia responsável requer e do que uma equilibrada psicologia humana exige.

E prossigo, bordejando caminho de espinheiros, porque se sabe o leitor que me acompanha que eu não adscrevo toda a responsabilidade do conflito russo-ucraniano a um imperialismo neo-soviético, pois bem presente ele tem, também, que não serei um putinófilo de torta cepa, um saudosista de tempos desfeitos.
Que pode interessar-me, senão o futuro? Que podemos nós visar, senão a correcção de erros admitidos por equívocos e desatenções, por juízo curto? Por preconceito e má vontade, noutros casos. Sendo isto que nos move, porque é que tão frequentemente enchemos o húngaro e o polaco de ralhos díspares, mais o esloveno, que nem atingimos porque razão se embeiça com as posições do Kremlin. E o sérvio!
Enfim, não está o russo com a cândida e virgínea democracia ocidental, mas o russo é torpe, diremos nós à boca cheia. E o alemão? Alinha o alemão que vota AfD com quem, certo sendo que o vemos como um aleijão na paisagem?

Com os resultados das europeias, que reunificação alemã podemos nós incensar? Falhou a Alemanha na absorção do patrício comunista martirizado, como nós, tomados por um todo, falhamos nas boas-vindas ao Vassya e ao Micha, à Olya e à Natacha, porque nos impeçamos de os receber na sua altivez? Se os tememos, que diz isso de nós? Se os desprezamos, em função dos nossos paradigmas, não estarão eles dentro de algum direito de nos desancar?
Maldigamos uns dos outros, mas assumamos que é por viés bolorento, não porque um mal intrínseco ressalte daquele que banimos ou arrastamos pela lama. Em suma, frágil é a nossa superioridade e bem deveríamos consumir-nos com telhados e paredes próprias, porque se a ferida na harmonização entre o espírito russo e o espírito ocidental só pode ser por pecado do eslavo, a falta de homogenia entre o alemão de leste e o de oeste só pode ser por malignidade do primeiro.

Ora esta lógica não nos serve. Talvez procuremos escapatória, de seguida, afirmando que o alemão de leste foi duramente adulterado pelo soviético, o que por outra deixa em aberto a interpretação concorrente, de que o Plano Marshall haja operado maravilhas, contra uma preservação da genuinidade germânica no outro quarto das partilhas do pós-guerra e eu, que alguns conheci, bem posso opinar que não eram de ceder na frente da identidade nacional.
Iludimo-nos com o custo heroico dos erros em que insistimos: derrubamos um muro, mas continuamos às cabeçadas a paredes que temos um pouco por todo o lado. É ver que faz mal.

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