Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Ao longo do Verão

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2016-09-02 às 06h00

Margarida Proença

OVerão é, tradicionalmente, um período menos significativo no que diz respeito a notícias e acontecimentos de impacto. Os jornais alteram as suas estratégias, proporcionando aos seus leitores artigos mais leves, respostas a questionários, sugestões para atividades em família, etc.
Este ano, no entanto, o verão tem sido recheado de acontecimentos relevantes, nacional e internacionalmente.

Os Jogos Olímpicos foram notáveis, depois de tanto se ter falado e antecipado o desastre organizativo que ia ser o Brasil, bem como os potenciais conflitos de rua, roubos e quejandos; “O Rio de Janeiro continua lindo…”. A participação de Portugal foi o que foi, talvez a correspondente a um país que, do ponto de vista cultural, se especializou quase integralmente, no futebol.

Os fogos voltaram, marcando de novo, e sempre, os verões; não tendo, em absoluto, qualquer proposta estratégica ganhadora para ultrapassar o problema, a minha formação profissional leva-me sempre a colocar em cima da mesa a possibilidade de comportamentos racionais por parte dos agentes económicos, tendo em vista a maximização dos seus interesses e determinando as suas escolhas e decisões. E se a antecipação, consistente, for de inexistência de penalização efetiva, ou a atribuição de uma probabilidade baixa de tal ocorrer rapidamente, mais espaço existirá para a satisfação de preferências individuais que atentem contra o bem-estar, seja por motivos diretamente económicos ou por dificuldades e problemas de ordem psicológica ou psiquiátrica.

No plano internacional, passado que foi o choque do Brexit, Trump, Dilma e Rajoy marcaram, por razões diversas, este Verão. Do ponto de vista político, parece que se vai caminhando no sentido de uma progressiva radicalização, na aceitação de posições políticas irreconciliáveis e logo na incapacidade de construir soluções. Espanha poderá, eventualmente, vir a ter terceiras eleições, com resultados que poderão ser análogos aos anteriores, a menos que os atuais líderes políticos se retirem e abram espaço a novas escolhas.

As sondagens, nos Estados Unidos, têm vindo a sugerir que, apesar de ser possível a vitória de Trump, que Hillary Clinton tem uma probabilidade de ganhar na ordem dos 87%, ainda que com variações muito significativas entre estados - por exemplo, de acordo com o The New York Times, de 31 de agosto, Nova Iorque, a California ou Massachusetts apresentam probabilidades de sair vencedora a candidata democrata na ordem dos 99%, enquanto em estados como Idaho, Alabama, o Mississipi, ou o Utah a probabilidade de Trump vencer varia entre os 95% e os 98%. Em qualquer caso, o discurso populista tem vindo a ganhar um número si-gnificativo de apoiantes, apoiando a ideia que a questão dos imigrantes é simultaneamente a fonte dos males e a porta para a resolução dos mesmos…

Na verdade, nos Estados Unidos, onde seguramente quase todos têm as suas raízes familiares, há mais ou menos tempo, em imigrantes, a atração por esta questão remeterá provavelmente para questões de natureza sociológica, sei lá, porque na verdade, neste momento as estatísticas apontam no sentido de que o país se vai aproximando do pleno emprego, e a clara recuperação da grave crise financeira de 2008 faz a Europa corar de vergonha.
Quando se compara o desempenho dos Estados Unidos com o da Europa, o tema da diferença nos níveis de produtividade está normalmente presente.

De forma idêntica, o debate sobre produtividade no contexto da União Europeia opõe países, por exemplo, como a Alemanha e Portugal. Boa parte do problema remete para políticas públicas como a educação, a inovação, ou o apoio ao emprego, mas em larga medida resulta de práticas de gestão. Isto é, das decisões tomadas pelos empregadores e pelos gestores.

Ainda que pareça sempre mais fácil culpar os outros - em particular, os governos - pelos problemas, a investigação sobre este assunto tem vindo a sublinhar que as diferenças nas práticas da gestão explicam muitas das diferenças nos níveis de produtividade entre empresas. Bender e outros autores, num artigo de discussão publicado em março de 2016 pelo reputado centro de investigação CEPR, mostram que as empresas melhor geridas, com estratégias e objetivos claramente definidos, com uma eficiente organização e monitorização, com a definição de incentivos adequados, recrutam trabalhadores com níveis mais educacionais mais elevados, maior capital humano, mais produtivos, e tendem a mantê-los.
Por cá, isto ainda não se percebeu, ou não se acredita.

A história de que empresas, eventualmente, usam os estágios profissionais como forma de trabalho quase a custo zero, obrigando os jovens estagiários a entregar-lhes a parte que lhes competiria pagar, é do ponto de vista ético muito difícil de aceitar, mas revela também uma total incapacidade para compreender o que é gerir.  

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