Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Ao contrário da República!

A vida não é um cliché

Ideias

2010-04-26 às 06h00

Artur Coimbra

Quando o governo de José Sócrates decreta tolerância de ponto para os funcionários públicos no próximo dia 13 de Maio, por ocasião da visita do Papa Bento XVI a Portugal, não estamos a pensar apenas numa mera medida política; estamos no domínio da negação do que é o “espírito da República”, que tão badaladamente se anuncia pelos clarins mediáticos.

Além do dia 13, início das aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria aos três pastorinhos, segundo a mitologia católica, será também concedida tolerância de ponto aos funcionários públicos em Lisboa, na parte da tarde do dia 11 de Maio, assim como no Porto, na parte da manhã do dia 14 de Maio, datas em que o Santo Padre vai estar em cada uma das duas cidades.

É claro que os bispos portugueses exultam de contentamento, pois haviam pedido a Sócrates a concessão de um dia para que os crentes pudessem acompanhar a visita do Papa ao país e eventualmente assistir a uma das missas celebradas pelo líder máximo da Igreja Católica.

Numa altura em que o país se debate com uma das maiores crises económicas dos últimos anos, na ressaca da cobiça e da ganância das estruturas financeiras mundiais e locais, não deixa de ser estupidamente paradoxal que o país público pare durante dois dias, na prática, só porque o Papa vem a Portugal. Não se questiona a utilidade da visita de um Papa que não está claramente demarcado das execráveis e nada celestiais pendências da pedofilia de alguns clérigos (continua a falar em linguagem cifrada…), mas pergunta-se: quando o primeiro-ministro, em outras ocasiões, se afadiga, até à entorse mental, contra leis e tradições, a clamar a uniformização de procedimentos para o sector público e para o sector privado, porque raio é que apenas a função pública pode, nesses dias, ver o Papa, se o quiser, ou, o mais certo, passar uns bons momentos nas praias, se o tempo for de feição, ou nos hipermercados, a passear o nada fazer? E os operários das fábricas e os empregados do comércio também não têm direito a tolerância de ponto?

Para alguns, a decisão do Governo pode ser considerada uma «espécie de remuneração adicional» para os funcionários públicos, que viram os seus ordenados congelados, neste e nos próximos anos.

Um dia sem trabalhar - tomemos apenas o 13 de Maio - em plena conjuntura de crise, pode reflectir-se na perda de 1% do Produto Interno Bruto, segundo os entendidos. Isto numa altura em que o crescimento económico está muito próximo de zero é de bradar aos céus, ou de evocar todos os anjos, que poucos serão para levantar o que teima em não sair do chão.

Tudo isto, salvo o devido respeito, ressabe a populismo e a refinada hipocrisia. O governo quer agradar à Igreja Católica, mas está claramente a prejudicar o interesse nacional: são milhões de euros de quebra de produtividade que vão ser desperdiçados.

Não deixa de ser paradoxal que tal aconteça numa altura em que se comemora festivamente o centenário da República implantada em 1910. E todos sabemos que um dos valores basilares, e imprescritíveis, da República, que a demarca iniludivelmente da monarquia, é o da inequívoca e absoluta separação da Igreja do Estado. Antes do 5 de Outubro, nos termos constitucionais, a religião do Estado era a Católica, Apostólica, Romana. A revolução republicana fez-se, exactamente e em grande medida, para acabar com a promiscuidade entre o Trono e o Altar, que vigorava havia séculos. A República, em 20 de Abril de 1911, promulgou aquela que é a pedra basilar da modernidade: a famosa Lei da Separação do Estado da Igreja. Passaria a haver respeito, consideração, mas uma atitude de igualdade de todos os cultos perante a lei e o regime. Foi o que sucedeu ao longo de todos estes anos.

Mais: o chefe de outra religião que tem inúmeros adeptos em todo o mundo, o Dalai Lama, que inspira consideração e simpatia universais, esteve há tempos em Portugal, mas suas excelências os senhores primeiro-ministro e presidente da República alegaram não ter “agenda” para dar um aperto de mão ao chefe espiritual de milhões de seres humanos, o que não seria bem visto pelo colosso chinês, ante o qual nos ajoelhamos, servilmente, antes de fazermos um mediático jogging pelo empedrado de Tiannamen. É o que se chama a “real politik”, ou falta de coluna vertebral.

Dir-se-à que a religião católica é maioritária neste país. Será verdade, embora já há quem defenda o contrário (v. g., Marcelo Rebelo de Sousa, ele próprio católico). De todo o modo, estamos num país de Estado laico, em que a explosiva mistura de política e religião não costuma dar bons resultados.
Só a política caseira justifica ou enquadra as decisões que acaba de tomar!

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