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Escreve quem sabe

2023-02-04 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Em novembro do ano passado, há poucos meses, portanto, foi lançado pelo laboratório de investigação californiano Open AI o chatbot ChatGPT (Generative Pre-trained Transformer) que agora anda nas bocas do mundo – escrevi ontem esse nome na caixa de pesquisa do Google e deu-me o estonteante número de 502 milhões de páginas. Um chatbot (em inglês: “chat”, conversa e “bot”, robô), diga-se, é um programa de computador que tenta simular a conversação humana (escrita ou falada).

Quem já teve a oportunidade de o testar – por enquanto é gratuito, mas irá, em breve, passar a ser pago ou ter uma versão profissional paga – ficou, muito provavelmente, impressionado com o seu poder. Inseri na respetiva caixa de pesquisa um pedido – “escreve um artigo sobre as consequências éticas do uso do ChatGPT” – e uma pergunta “quais são os prós e os contras do uso do ChatGPT?”. Foram feitas tal qual e em português. O resultado deixou-me de queixo caído: levou cerca de 20 segundos para responder e os textos não continham qualquer erro ortográfico, prosódico, sintático ou semântico. Mais, os textos pareceram-me idênticos aos de qualquer escritor humano minimamente competente no assunto. Fiz aqueles mesmos pedido e questão ao Google e a resposta recebida foi, como esperado, uma mera lista de links de páginas para consultar.
Desconfiei que poderia tratar-se de uma apropriação de bocados de discurso apanhados aqui e ali na Internet, o conhecido copiar-e-colar. Submeti as peças a um detetor de plágios e…passou com distinção.

O ChatGPT é uma instância da chamada IA generativa, isto é, de máquinas capazes de aprender e de gerar conteúdos novos e originais, não se restringindo à produção de texto, antes sendo também capaz de criar imagens, vídeos e música. Note-se, todavia, que o programa não bebe no oceano de dados existentes na Internet, mas opera com base num modelo de linguagem ou, como a linguista computacional americana Emily Bender afirma, comporta-se como “um papagaio estocástico”, uma vez que usa um corpus lexical amplo, mas limitado, que governa de forma combinatória e probabilística.
Este assistente virtual é, como dizem alguns, um “game changer”, capaz de colocar fora do negócio o Google, atualmente a 4ª empresa mais valiosa do mundo.

E justifica-se toda a atenção que está a receber, em especial os receios que instila de poder receber usos perversos (e.g., fraude académica na forma de plágio) ou de poder por fim a um conjunto de profissões no domínio da produção informativa ou criativa (e.g., escrita literária, jornalismo)? Diria que não mais que muitas outras tecnologias.
Na verdade, nem se trata de uma tecnologia completamente nova, porquanto bastará pensar no GP3 saído em 2020 ou no Jabberwacky de Rollo Carpenter de 1992, no Parry de Kenneth Colby de 1988 ou no Eliza de Joseph Weizenbaum de 1966. Os chatbots estão entre nós, pois, há mais de meio século.

Por outro, parece que apenas difere em grau, por exemplo, de uma máquina de calcular, de um tradutor automático ou de um corretor ortográfico. Eles são, claro, exemplos muito rudimentares de IA, mas suponho que ninguém pretenda prescindir deles, ainda que tenha contribuído para o empobrecimento do cálculo mental e da imaginação e competência linguísticas naturais.
Na história das tecnologias, consequências indesejáveis de uma tecnologia específica tipicamente são, a prazo, anuladas por uma contra-tecnologia correspondente (e.g., contraespionagem para espionagem, antimísseis para mísseis). Será, pois, de esperar que, tarde o cedo, teremos anti-IA para neutralizar os efeitos nocivo da IA.

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