Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Anos depois

Um futuro europeu sustentável

Conta o Leitor

2014-08-05 às 06h00

Escritor

Carlos Alberto Rodrigues

Queria acreditar que ter faltado ao trabalho naquela tarde seria compensador pelo encontro que tinha marcado com Elisa. Tinham-se encontrado no dia anterior e como não se viam fazia já alguns anos, as saudades venceram o compromisso profissional. O ponto de encontro tinha sido a praia do Moledo ex-libris por natureza dos areais minhotos e local sempre aprazível faça sol faça chuva. Aliás em certas situações cria-se em torno da praia uma atmosfera quase mágica que nos remete para prosas de outros tempos, a lembrar aventuras de quando eramos mais novos, as suas paisagens descritas de forma expressiva, de cortar o fôlego de tanta beleza, como que deliciando corpo e alma, sendo importante para perpetuar e transmitir às gerações vindouras com o forte desejo de não se perderem no tempo pois o que era ontem naquela paisagem nada tem a ver com o que vemos hoje em dia.
Em tempos de tempo que passa a correr, quando os dias passam depressa, parece já não terem sequer as horas que tinham, onde a praia é um mero ponto no mapa torna-se por isso urgente e prioritário para memórias futuras não esquecerem ou lembrarem com nostalgia.
E depois há ainda a recordar aquela gente honesta e trabalhadora que recebiam com amor e gratidão aos Deuses o que a terra e o mar tinham para oferecer. Essa genuidade ainda se faz sentir. E depois havia muitos momentos vividos em comum num tempo em que se cantava na alegria e na tristeza. O prazer que tinha em ver os mais pequenos descalços pela orla marítima, ou na ajuda aos mais velhos na recolha do sargaço e outras lides do campo e do mar. Nunca o campo esteve tão perto do mar e da montanha. Tão só sublime. Moledo era encanto e tradição feitos por gente que vai e vem, mas que deixa os seus feitos gravados nas nossas memórias que o tempo por mais que queira, jamais deixará esquecer. É sempre um orgulho e saudade ouvir falar da nossa terra. De gente iletrada e praticamente analfabeta mas que tinha uma sabedoria muito sui generis, muito própria, feita de vivências, dificuldades e experiências que eram herdadas de pais e avós e transmitidas por via oral a que se juntavam novas sabedorias. Embora nunca tenham experimentado os bancos da escola tinham com eles a fonte do saber por via da escola da vida, uma verdadeira universidade de conhecimentos que partilhavam entre si.
É pelos dias quentes de verão de minha infância que recordo aquela gente através de palavras desenhadas e afeiçoadas por sentimentos puros. Raro era o ano em que a família fazia aquele caminho desde Braga até ao descanso merecido depois do trabalho e da escola. Tinha sido eu quem lhe “apresentou” aquele cenário tão habitual a cada verão da minha vida. E também ela, desde essa altura, comungava da beleza e muitos foram os dias em que juntos partimos em busca de aventura de paz e de amor.

Ele próprio pretendia dar tréguas ao cansaço do trabalho e ao rebuliço da cidade. Ele que se tornara dependente das luzes das cidades porque dela precisava por motivos profissionais - escrevia para revistas de viagens e muitos dos artigos eram sobre cidades espalhadas por todo o mundo. Já tinha visitado todos os continentes mas voltava sempre ao “ponto de partida”: o seu Minho em toda a sua plenitude. Conhecedor de toda a região não lhe era dificil fazer um escrutinio de escolha sobre o local de eleição em que o Gerês e as suas serranias ganhavam pela proximidade da aldeia que o viu nascer e porque também lhe trazia uma estranha mescla de sentimentos que iam da saudade dos tempos que pertenciam à sua meninice ou pela nostalgia dos lugares que amiúde se descobria. Era isso mesmo: a descoberta de novas sensações levara-o naquela tarde a marcar encontro com aquela que durante muitos anos tinha sido a sua musa inspiradora, amante e companheira para o bem e para o mau. Finalmente pelas saudades daqueles em cujo colo andou.
Sentada na areia da praia, Elisa olhava o mar como se nada mais existisse à sua volta. Ausente, parecia não ter notado a minha presença. Ao ver-me aproximar-se ela sorriu. Acariciei-lhe os ombros. - “Estive apaixonado por alguém que afinal não me pertencia. Agora posso-te dizer isto depois de te apreciar por breves instantes e de ter pensado que realmente assim era. Como resposta recebi um sorriso, um sorriso que já tinha esquecido mas que me levou a outros tempos. Pouco tinha mudado apesar dos anos terem passado a correr. Para realçar o meu raciocinio retorqui:
- És antes de mais uma mulher do mundo, nada de prisões ou de compromissos - os doze anos juntos sem casamento apenas com juras de amor eterno eram tão só um bom exemplo disso. Voltaste a sorrir como que anuindo ao meu pensamento.
- Ou será que me enganei e tens alguém capaz de te fazer feliz, realizada?
- Enganaste. Ai como te enganas. Depois de ti… mais nada (onde já ouvi isto? sorriu) mas é a mais pura das verdades. Foste o meu porto de abrigo que me protegiu das tormentas e dos pesadelos. Foste o meu cavaleiro andante, sempre. Nunca duvides.
Estavam sentados lado a lado a uma curta distância duma carícia de um beijo. Passei novamente as mãos pelos seus cabelos cor de trigo e olhei bem fundo dos seus olhos da cor daquele mar que estava mesmo ali em frente aos dois.
Elise beijou-me novamente, agora com mais fervor. Não queria acreditar que eu não me apercebesse da atração que ainda exercia sobre ela. Sempre que os seus corpos se tocavam, era como se o passado voltasse de novo para acender o fogo que ainda existia em nós. Não deviam ver-se nem falar-se. Mas como negar a evidência? Ele ainda tinha presente o último dia em que estiveram juntos.
Tudo tinha sido colocado em pratos limpos e por isso mesmo foi mais “fácil” a separação. Porém naquele início de tarde bastaram poucos minutos para que um turbilhão de sentimentos se apoderasse deles. As carícias tornaram-se mais intensas. Quando me preparava para lhe beijar os seios que por causa da brisa sairamda tua blusa e ficaram nus, o corpo dela tornou-se tenso.
- Que se passa? Queres que pare?
- Não. Pareceu-me ouvir barulho.
Olhei em redor sem nada ou alguém avistar. Dirigi-me até à orla do bosque mas também nada vi. Quando voltei para junto dela, acabara de se despir e dirigia-se em direção ao mar.
- Vens, ou não queres?
Num segundo estavamos os dois naquela água que apesar de fria ficou de repente tépida pelo calor dos nossos corpos.
Num rodopio a dois os corpos bailavam ao sabor das ondas. Ficámos assim durante o resto da tarde. Prometeu-me que aquela foi a última vez que estivemos juntos como tantas vezes estivémos quando o tempo ainda era novo. Jurou-me que me amava mas que era melhor ficar com aquele cenário como o último local em que podíamos ser felizes.
Não me tinha arrependido de ter perdido aquela tarde de trabalho para a ver uma vez mais, mesmo que fosse a última, valeu a pena!

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