Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Ano Novo - que vida nova?

Escrever e falar bem Português

Ideias

2015-01-09 às 06h00

Margarida Proença

Gosto do início dos anos, desta sensação ilógica de que qualquer coisa inesperadamente positiva e brilhante pode acontecer, como se iniciasse a leitura de um livro novo, desafiante e complexo. Uma variante da esperança com que, felizmente, sempre nos confrontamos quando olhamos para o futuro. E ilogicamente também, sempre gostei das datas terminadas em cinco e dos seus múltiplos, como este ano novo de 2015.

Pois é. Mas na verdade o grau de incerteza - dentro e fora de portas - que este ano novo nos traz é por demais significativo. Acabou mal 2014, com a morte de mais de uma centena de crianças, começa mal 2015 com um ataque a um jornal e a morte de humoristas.

Acabou mal 2014 com a constatação de que o desvio entre ricos e pobres nos países da OCDE atingiu o nível mais elevado dos últimos 30 anos. Conforme um artigo publicado por Cingano, do Banco de Itália, mostra, nos anos oitenta os dez por cento mais ricos tinham um rendimento cerca de sete vezes superior ao dos dez por cento mais pobres; atualmente, ganham cerca de 9,5 vezes mais. E estes valores traduzem médias; a situação não é tão má nos países nórdicos, por exemplo, mas em Portugal, em Itália, ou no Reino Unido o rácio é de 10 para um; na Grécia, na Turquia ou nos Estados Unidos varia entre os 16 e os 13, e no México ou no Chile chega a variar entre 27 e 30. Durante as fases de crescimento, o rendimento dos mais pobres cresce mais devagar, e durante as crises cai mais rapidamente. Mas o autor mostra ainda que sem qualquer dúvida, a crescente desigualdade tem um impacto negativo no crescimento económico a longo prazo, porque prejudica o desenvolvimento das capacidades educativas, seja em termos formais ou de aquisição de competências profissionais.

Em 2015 haverá um conjunto significativo de eleições que irão determinar as políticas públicas de uma forma que não é possível antever correctamente, dada a velocida- de a que as coisas têm vindo a mudar.

Na Grécia, a eleição do novo governo, com a provável vitória do Syriza que reclama o perdão da dívida como forma de garantir a recuperação da economia e do emprego, permite antecipar a muitos uma preocupação significativa, e justificada, com uma resposta negativa dos mercados e a possibilidade de contágio a outras economias da Europa (como sempre, as mais frágeis a pagarem preços mais altos). E no entanto, quem sabe, é certo que os bancos alemães já estão agora muito menos preocupados com o que se passa pela Grécia, porque diminuíram muito a sua exposição á divida grega. Que se passará? Veremos, mas certamente qualquer dos percursos se refletirá aqui pela nossa casa…

Entretanto, a instabilidade financeira a nível mundial continuará a aumentar, o crescimento na zona euro não tem vindo a surpreender pela positiva, uma vez que as últimas projeções da Comissão Europeia apontam para um crescimento económico de apenas 0.8%, abaixo dos 1,3% previstos. Em Portugal, temos legislativas; segundo a racionalidade económica, será de esperar um ano de pressões sobre os salários e benefícios por parte de classes profissionais com mais força. Veja-se já, acabadinho de nascer o ano, ainda tão bebé, e já as propostas dos juízes. E virão outras, virão certamente mais.

A palavra-chave para 2015 será certamente incerteza. Mas é ainda assim um ano novo; não consigo resistir, deixem que pense com alguma esperança…

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