Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Ano novo, ‘ano horribilis’!

Sinais de pontuação

Ideias

2012-01-02 às 06h00

Artur Coimbra

1. O ‘ano horribilis’, como tudo leva a crer que será 2012,está a dar os primeiros passos. É de tradição, na noite da passagem de ano, os cidadãos comerem doze passas, beberem uma taça de champanhe e comporem a sua maior esperança nos 365 dias que se avizinham, em que se soltam todos os sonhos que sejam possíveis.
Todavia, este ano foi certamente diferente. A maioria dos portugueses não deixou de assinalar da melhor forma o ‘revéillon’, até para não ser vencida pela depressão, mas os desejos para 2012 não foram imbuídos da esperança e da utopia que normalmente são apanágio da noite mágica de 31 de Dezembro.
Porque ninguém escapou à consciência de que, descidos à realidade, em 1 de Janeiro, o que nos esperava é um país no fundo do buraco, atolado na frustração, no desalento e no desânimo, com tudo o que mexe a dilatar de preço, enquanto os ordenados diminuem e os subsídios se evaporam.
É claro que a propaganda oficial nos fala da urgência de olharmos em frente, de vencermos este momento de desilusão, de nos unirmos em torno de um futuro comum, de confiarmos, para ultrapassarmos a crise.
Curiosamente quem nos acena os hinos do optimismo, do valor que temos, das potencialidades para seguirmos adiante, são os mesmos que não são afectados grandemente pelos cortes orçamentais, seja porque não vivem em Portugal, seja porque auferem ordenados majestáticos blindados a qualquer privação.
Não é esse, seguramente, o estado da nação portuguesa em geral.
Por isso, a passagem de ano não deixou de ser um momento paradoxal, em que a esperança que devia ser, porque intrínseca à data, cedeu o lugar ao pessimismo que não pode deixar de se impor, a não ser para os fantasistas sem os pés assentes na terra.
Porque ninguém ignora o que nos espera em 2012, seguramente o ano mais cruel das nossas vidas. A saber, e em resumo: a austeridade mais rigorosa, punitiva e paralisadora da actividade colectiva; o rosário de aumentos nos bens essenciais, por via do agravamento das taxas do IVA, da generalidade dos produtos alimentares às taxas moderadoras nos centros de saúde e nos hospitais, da electricidade às telecomunicações, aos combustíveis, às portagens, à restauração e às rendas de casa; a despudorada usurpação dos subsídios de férias e de Natal, associada ao corte drástico nos benefícios fiscais; o acréscimo do desemprego para taxas indecorosas; a falência continuada de empresas e de famílias, como nunca se viu; a consagração dos despedimentos a baixo custo e com a máxima facilidade; o desinvestimento criminoso em sectores cruciais, como a educação e a saúde, onde se instalaram ministros cuja sensibilidade “social” é para os números e para os cortes; o desaparecimento de freguesias e de municípios, num ataque ao espírito do poder local e da democracia como nunca se viu desde o 25 de Abril; o aprofundamento da perda do poder de compra da classe média, para níveis inusitados; o empobrecimento geral da população, em especial dos sectores mais vulneráveis; o inapelável e merecido descrédito da classe política e das elites governamentais; o sentimento de injus-tiça que não pára de germinar na sociedade, devidamente “sancionado” pelas mais altas ins-tâncias do Estado; enfim, e para não alongar, a certeza de que estamos a ser governados de fora, por meio dos homens de mão que a maioria dos eleitores escolheu, como se a nossa soberania nacional estivesse reduzida a zero.
Nestas circunstâncias, eu, que sou dos que, antipatrioticamente, não acredita nem um pouco nos actuais condutores da “coisa pública”, nem nos “benefícios” do “benemérito” sistema financeiro que nos saqueia os bolsos, a alma e a identidade, sem a sombra de escrúpulos, na passagem de ano comi uma grande passa para manifestar uma simples ambição: que passemos rapidamente, ao menos, para 2013. Que façamos com um ano, como os de Samoa, que eclipsaram um dia!...
Este ano não vai deixar as mínimas saudades aos portugueses, como todos já nos consciencializamos.
Neste miserável cenário, soam a refrigério os desejos do director do jornal La Voz de Galicia, Xosé Luis Vilela Conde, um estrangeiro que escreve: “que não se castiguem mais os cidadãos portugueses com o pagamento de dívidas que eles não contraíram” (JN, de sábado).

2. O Presidente da Repú-blica acaba de desmascarar a sua alegada “isenção” e “independência” ao promulgar, sem reservas, na sexta-feira e depois de “analisar cuidadosamente”, como é seu timbre, o Orçamento de Estado, que antes considerava ferido de “iniquidade fiscal”, por tratamento diferenciado dos trabalhadores e altamente lesivo dos portugueses.
Será de relembrar que foi a sua declaração, quando tomou posse, em 9 de Março, “há limites para os sacrifícios”, que levou Passos Coelho a chumbar o PEC IV, com todas as consequências para a economia e para a sociedade que estão a descoberto.
É bem certo que “os portugueses já sabem o que eu penso”, proclamava Cavaco Silva, dia antes.
Todos ficámos bem cientes de que lado da barricada está o mais alto magistrado da Nação, num ano em que a direita cumpriu, finalmente, é bom lembrá-lo nestas ocasiões, a utopia de Sá Carneiro de mandar no país com uma maioria, um governo, um presidente.
Em Março, havia “limites para os sacrifícios”. Em Dezembro, numa situação incomensuravelmente mais gravosa e penalizadora da generalidade dos portugueses, não há a mínima reserva, nem observação pública, ao Orçamento mais castrador do regime democrático.
Estamos esclarecidos!

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