Correio do Minho

Braga, sábado

Ano novo, grafia nova!

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2012-01-08 às 06h00

Carlos Pires

1. Os tempos mudaram; os tempos são outros. Não necessariamente melhores ou piores, mas diferentes.
Vivemos uma época muito especial da história humana, uma época de abertura, uma nova dimensão da nossa sociedade contemporânea mundial. O fenómeno da globalização contribui fortemente para a criação de laços económicos, sociais, culturais e outros. Tal cenário traz inúmeras transformações em todos os “setores” da vida humana e constitui o principal “fator” responsável pela criação de novas linguagens, novos padrões e locais de trabalho, lazer e consumo.
Face a esta realidade, torna-se absolutamente necessário que todas as questões e estratégias relativas a Portugal sejam equacionadas não apenas de “dentro para dentro”, mas sobretudo de “dentro para fora”, ou seja, pensando o país enquanto território inserido numa teia mundial da qual depende e não pode fugir (nem tem interesse em fazê-lo!).
Ora, uma das questões que tem sido “objeto” de discussão acesa é a relativa à nossa língua, o português, esse notável instrumento de comunicação que representa, a par das Descobertas, um dos nossos maiores legados para a cultura universal. A causa de toda a celeuma reside no Acordo Ortográfico, celebrado em 1990 com o “objetivo” de criar uma escrita unificada para o português, a ser usada por todos os países de língua oficial portuguesa. O Acordo entrou em vigor em “janeiro” de 2009, em Portugal, mas até 2015 decorre um período de transição, durante o qual ainda se pode utilizar a grafia actual.
A partir do dia 1 de “janeiro” de 2012, o Acordo passou a ser aplicado nos documentos do Estado, bem como no Diário da República. Vou aproveitar este ciclo do período de transição para eu próprio adaptar a minha escrita às novas regras, certo de que, de quando em vez, a força da tradição me fará incorrer em algum erro. De qualquer forma, a presente crónica constitui o meu primeiro ensaio, pelo que optei, desta vez, por colocar “entre aspas” todas as palavras cuja grafia passa a diferir da anteriormente utilizada, para que este exercício possa de igual forma alertar os leitores ainda menos informados para o grau das novidades de escrita.

2. Sou a favor do Acordo Ortográfico. Razões? Em primeiro lugar, porque não somos donos da língua portuguesa. Quem faz a língua é quem a fala e quem a escreve. Existem cerca de 225 milhões de lusófonos e nós, em Portugal, somos apenas 10 milhões. Criámo-la, mas constituímos uma minoria das pessoas que a usam. Ela é já muito maior do que nós. Uma visão estratégica terá que promover a maior unidade possível da Lusofonia, como um todo.
Em segundo lugar, as diferenças introduzidas pelo Acordo Ortográfico são pouco extensas - 1,6% do vocabulário da língua em Portugal e 0,5 no Brasil - e vão todas no sentido da simplificação. Em Portugal, a grande mudança é a queda das consoantes mudas. Passa a haver uma regra simples - no momento de escrever, pense-se: eu pronuncio aquele 'C'? Se sim, escrevo. Caso contrário, não escrevo. Esta regra vai facilitar a vida a muita gente no momento da escrita. Quando começar a ser utilizada, pouca gente quererá voltar atrás e ninguém se vai lembrar das razões de tanta resistência. O mesmo que o “F” fez ao “Ph”, tempos atrás. Alguém por acaso defende hoje o retorno aos tempos em que se escrevia “pharmácia”?
Em terceiro lugar, não vale a pena, parece-me, insistir-se na ideia de que tudo se resume a que o mais forte (o Brasil) impôs a sua vontade ao mais fraco (Portugal). Convenhamos, se não houvesse o Acordo cada país faria o que quisesse. Daqui a uns tempos de igual forma a poderosa Angola poderia “adotar” a ortografia brasileira, e outros países a poderiam seguir. Portugal tinha dois caminhos: isolar-se ou negociar. Fez o estrategicamente correcto. Para além de contribuir para a preservação da língua comum, uma ortografia unificada torna-se também necessária às organizações internacionais onde o português é língua de trabalho, aos estabelecimentos estrangeiros de ensino do nosso idioma, à difusão e promoção do livro em português no mercado internacional. A titulo exemplificativo, a criação de uma norma única pôs fim à situação absurda (exclusiva do português, entre as línguas europeias) de haver duas normas ortográficas oficiais, o que obrigava a que nos fóruns internacionais, como na ONU, os documentos tivessem que ser traduzidos para 'duas línguas': 'a portuguesa' e 'a brasileira'…

3. 2012 é um ano em que a região Minho será catapultada para além das nossas fronteiras, fruto de reunir duas capitais europeias: Guimarães é Capital Europeia da Cultura e Braga é Capital Europeia da Juventude. Por outro lado, é certo que em 2012 manter-se-ão crescentes os fluxos emigratórios de nacionais para países de língua portuguesa mais prósperos, como o Brasil e Angola. Prova cabal de que o nosso lugar é cada vez menos um território limitado, uma região, ou um país, para passar a ser o mundo. Neste mundo conectado a língua portuguesa é a nossa identidade. A gestão desse nosso património intangível deve corresponder a um “projeto coletivo” e não reduzir-se à estreita defesa de interesses particulares ou constituir motivo para discursos de autênticos “Velhos do Restelo”. Fernando Pessoa sintetiza esta ideia quando afirmou, há um século: “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”.

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