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Ideias

2018-11-02 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

A antropologia sustenta que o género humano teve o seu berço em África, e daí irradiou para todo o planeta. A tese de que, no fundo, somos todos pretos (e eu escolho este termo de propósito) tem ares de não agradar a muita gente, desprazendo, sobretudo, a pessoas que se tomam de ares.
Quero registar que esta questão me passa um pouco ao lado, mas aproveito para assinalar que a África do primeiro homem talvez não estivesse onde a de hoje se encontra, e que as criaturas primevas até poderiam não ser negras de todo. Encurtando: que sabemos nós, exactamente?
Deste pressuposto quero extrair um aspecto crucial, o de que os grupos humanos se movem na ilusão ou esperança de novas oportunidades, de condições para singrarem e se protelarem em descendentes que deixem. Migram, quando já não dá onde estão; migram, quando uma morte hedionda se torna evidente e incontornável; migram, quando a ideia de perecerem em jornada lhes parece o acto derradeiro de heroísmo de que não queiram abdicar; migram, para entrarem como heróis no Além. E eu rezo por todos.
Se passarmos da antropologia para a história, numerosos são os grupos étnicos que andaram em bolandas, e é conhecida a ladainha dos alanos, vândalos e suevos, mais dos fenícios e cartagineses, mais do pai do D. Afonso Henriques, que teria vindo a Borgonha, porque por lá estivesse encravado e sem futuro. Por toda a parte é o mesmo: somos misturas, resultamos de quem arribou, uns por aventura, outros por desespero, uns porque o quisessem, outros porque tivessem sido corridos por quem chegava de outras paragens, com ganas e forças bastantes para ficar e escorraçar os locatários. Olha, a modos dos penetras que vão sobrepovoando as nossas cidades.
Esqueçamos a história, concentremo-nos no presente. Digamos que a europa não está capaz de acomodar mais um milhão de migrantes, e o milhão seguinte, logo que fosse voz corrente que o primeiro milhão disfrutava das delícias do novo paraíso. Digamos que os estados unidos rebentam pelas costuras, e que não estão capazes de receber escassos milhares que peregrinam ao encontro do deus-dinheiro. Sim, porque esta malta, o que quer, é ganhar uns trocados ou, na pior das hipóteses, viver à pala, uma vez que é irrealista a sua assimilação. Migrantes económicos, não! Ainda se fossem vítimas de perseguição política... Ainda se estivesse iminente um genocídio…
Soubemos, escandalizados, o que se passou no Ruanda, e corrigimos consciências com tinta de papeis timbrados do tribunal de haia. Arrisquemos dizer que era impossível prever o enfrentamento entre hútus e tutsis; digamos que ficamos tão aparvalhados, como quando os campos de concentração nazis se encheram de judeus; acrescentemos que ficamos tão atónitos, como quando os jovens turcos lançaram colunas de arménios ao encontro de mortes agoniantes, por exaustão, inanição e sede. Exclamemos: mas que bestas, estes hútus, estes alemães, estes turcos, mais os khmers rouges, mais o Mao Tsé-Tung, mais o Stalin…
Assim, caros dirigentes de tudo e mais alguma coisa: ponhamos a andar esta pandilha que se atira ao mediterrâneo sem visto dourado e nos causa embaraços, que isto é tudo rapaziada nutrida que melhor ficaria em casa, lutando pelo progresso dentro de portas, mas corramos a acudir o Iémen, já que a organização do senhor Guterres parece paralisada. Tomemos o partido dos que sofrem, ainda que as vítimas o sejam por garrote da arábia saudita, esse antro de virtudes.
Ah! Os iemenitas estão a morrer dentro de portas, porque não puderam sair, caso contrário seriam migrantes económicos. Certo?

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