Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Amor, Sofia

A pretexto de coisa alguma

Conta o Leitor

2013-09-05 às 06h00

Escritor

Hugo Gonçalves

É manhã de domingo. Pela pequena porta da entrada, José Soares entra no velho átrio do casarão, aonde vivera sua infância. Segue iluminado pela luz solar que se faz clara aos olhos e quente ao corpo por meio de duas janelas, uma completa, com esquadria, folhas, envidraçamento e acessórios intactos, e uma outra que, por conter tão poucos elementos da anterior, não estaríamos a cometer nenhum equivoco se, por ventura, ao invés de considerarmos uma janela normal, passasse a ser vista como uma abertura retangular feita na parede pintada de preto-mofo.

Auxiliando a visão do homem estaria, ainda, a claridade criada através da porta entreaberta que instantes antes lhe servira de acesso à idosa casa, instantes antes. Sobre ele, o olhar atento das coisas antigas, cobertas de pó e espantadas por humana criatura ter conhecimento das suas existências, por tanto tempo que alguém não as avivava. Entretanto, José havia já percorrido, calma e vagarosamente, o interior da casa outrora habitada. Em cada passada sua liberta-se um som curto e intenso que, saído debaixo dos seus sapatos, traz consigo a indubitável marca sonora de fra-gilidade e, ao mesmo tempo, de perigosidade do solo.

É com um andar pausado e compassado, e ao fim de uns tantos passos, que se vê perante a arca de família aonde, antes, se guardavam desde fotografias e outros objetos de valor familiar, até a algo tão pessoal e intimo como é, enfim, uma carta de amor, que por obra de mentalidades também tinham o seu espaço no móvel. Agora, aquela caixa de tampa plana e antiquada, com pouco mais de meio metro de altura, já não mais era útil senão para soltar marcas de pó pela sua grande mão.

Porém, aquele objeto não só havia soltado poeira para a mão. José sentira que a velharia tinha largado, também, momentos esquecidos no tempo. É então, com estranheza, que o J. Soares se começa a recordar de longínquas vivências dispersas pela memória e que lhe causam o entorpecimento do corpo, quase por inteiro. E com o corpo, os sentidos. Percebe, então, que a mente lhe roubou a alma do presente, trazendo-lhe o passado. Tem receio agora.

A mão, entretanto limpa do pó lançado pela velha arca, se abanara de pensamentos passados, de medos e dúvidas. Aquela agitação ele próprio sabia ter cadastro e que o pó, todavia, ganhara vida no plano do espirito. Num plano de desassossego aonde a compreensão é mais pequena que uma partícula de pó, ou mais débil que o chão que pisa. Por ora com os olhos encerrados sobre a caixa, decide voltar o olhar dali, abandonando o local. Bastara aquele sinal para José amainar as velas e defender-se da tempestade que estava ali próxima, pois faz ele na conhecida terra o que os navegadores fazem no desconhecido mar! De novo seu, pensou ele. Bastou dois passos para recuperar o espaço e o tempo. Sabia ter outra vida. A do aqui e agora.

Para José Soares, a idade lhe trouxera muita sabedoria e coragem. Não é, como o povo sabedor diz, homem de mexer muito com o passado mas, naquele domingo, prometera-se consigo mesmo a reentrar sozinho na casa de onde não mais se acendeu a lareira em família ou, se quisermos, não mais se falou de coisas mesquinhas e sem sentido. Antes, pedira à sua companheira, Sofia Soares de seu nome, para não o acompanhar, pelo que quisera assim. Ainda que fossem “unha e carne”, sabiam ambos quando um ou ou-tro precisava do seu espaço. Mais do que viva alma alguma, Sofia não só entendia José nas preocupações e receios, como também nos gostos e sonhos deste. Não havia amor como aquele, diziam as vozes íntimas deles. Era para a vida, ouvia-se.

Na casa, lá no alto duma parede, de me-tal cor dourada, um crucifixo fez por momentos parar José que se preparava, então, para se retirar dali por duas ordens de razão. A primeira por força do relógio do pulso que lhe indicara a muito próxima hora do almoço e a segunda, mais inquie-tante que a fome que se tornara ali consciente, porque o chão dava-lhe, crescentemente, sinais evidentes de estar nos seus últimos suspiros e que o mais prudente seria não se ficar ali por muito mais tempo, sendo assim. Olhando-o pregado no cimo da velha parede, sozinho, sabe ele ter perdido a crença no significado daquele símbolo milenar, apenas lembrado ali por causa da sua amada, devota religiosa. Sorri.

Deixou a casa. Deixou o passado. Deixou o medo. Deixou a cruz. É amado e com vida que se recorda da frase da sua mulher Sofia Soares: “O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções”.
É no amor que podemos conhecer os outros. É no amor que é possível conhecermo-nos. Ainda que nos percamos, havemos de nos encontrar eternamente no amor. Sofia…

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