Correio do Minho

Braga, quinta-feira

'Amor o que sou, quanto e queres-me?'

O Estado da União

Conta o Leitor

2013-07-21 às 06h00

Escritor

Goreti Rodrigues

Numa cama, os dois entre lençóis, ganhei coragem e perguntei:
- O que sou eu para ti?!
E sem hesitação ouvi a sua voz proferir:
- Para mim não és Nada.
Se não estivesse numa posição horizontal, aquele murro verbal ter-me-ia derrubado.
Não, não me podia conformar. No dia seguinte esfolhei o dicionário e procurei várias palavras:
Nada: ausência de quantidade; ausência de ser ou de realidade; o que não existe; coisa nenhuma; não; de modo nenhum.

Zero: algarismo que não designa por si só nenhum valor; coisa ou pessoa sem nenhum valor.
Nulidade: qualidade do que é nulo; falta de validade; falta de mérito; de talento; pessoa insignificante.
Nulificar: tornar nulo; anular.
Nulo: sem efeito ou valor; ineficaz; vão; nenhum.
Nega: negação; recusa; falha; fracasso.

Se o Nada tem assim tantas definições, tantos sinónimos, tantos nomes, tantos significados, talvez o seu Nada, não seja, a sua própria definição, mas uma espécie de antimatéria do próprio Nada. E o Nada percorreu durante todo aquele dia os meus pensamentos. O nada não devolvia soluções porque agia nos meus pensamentos, sem um corpo, sem um fio de sentido rodopiando dentro da minha cabeça. Como um cientista que descobre na prática o que ainda não conseguiu teorizar, assim, eu sentia, que aquele nada estava lá vivo, no interior da minha cabeça. Um Nada que se materializava em algo, mesmo que não me levasse a lado nenhum.

Se o cérebro não chega a uma conclusão é por vezes o corpo que descobre o caminho ao envolver-se na experiência. Numa nova noite, e num novo encontro com quem me apelida de um Nada, fiquei preguiçosa de qualquer acto. Por isso, se eu era um Nada, também não precisava de dizer nada, de fazer nada, de esperar nada. Na mesma posição do dia anterior, hoje não queria perguntar nem esperar mais respostas dele.

Continuava a cultivar aquele Nada, que me começava a atrair para uma estranha comodidade. Foi então, como se no meio daquele universo gelado e obscuro, se formasse um buraco negro. Exactamente como esse Nada galáctico, uma força gravítica poderosa, sobre a forma de dois braços ligeiramente musculados, avançaram para me abraçar. Aqueles braços, que eu tão bem conhecia proporcionaram-me a resposta sobre a forma de um abraço quente.

O Nada tão absoluto era apenas um subterfúgio para um Muito que se ocultava, omitido a medo. Se o Nada podia ser zero, ser nulo, ser nega, o Nada era Muito e eu não me importava mesmo que Nada fosse, desde que mantivesse aquele abraço apertado em meu redor.

Uma vez mais a minha personalidade carente e prostrada de dúvidas sentimentais entrou em acção. Desta vez, num belo jardim primaveril, cheio de novos rebentos e um tapete de pétalas cobrindo o chão, enlacei as minhas mãos nas dele e perguntei:
- Quanto me amas?
Ele impeliu-me para diante, caminhando silenciosamente até junto de um banco, onde nos sentamos lado a lado. Ao fim de algum tempo disse-me:
- Em que medida queres o meu amor? Metros ou quilos?

Fiquei realmente incomodada, mas ele tinha um fundo de razão. Ele podia amar-me 100 metros, 100 quilómetros, ou então, 100 quilos ou 100 toneladas. Todas essas medidas podiam ser quantificáveis, em muito ou pouco, mas que interessava essa quantidade, se o amor agora já não me parecia ter uma unidade de medida.

Ele percebendo o meu incómodo e a minha tristeza, ainda mais profunda, por me ter perdido na pergunta que eu própria tinha feito, compadeceu-se de mim, desenlaçou a sua mão da minha e apontou em frente para um dos baloiços.
- Vês aquele baloiço?
Acenei com a cabeça que sim. E ele continuou.
- Aquele baloiço é como o nosso amor. É como tratamos para que seja o nosso amor. Ambos temos pesos diferentes, e ele parecerá muitas vezes desequilibrado, mas quando isso acontecer, podemos procurar corrigir esse desequilíbrio. Cada um de nós pode pegar num pedaço do seu coração e coloca-lo na outra ponta, junto do outro, e ai, o baloiço estará novamente equilibrado.

Se mesmo assim, a distribuição do peso do sentimento causar dificuldades. Digo-te apenas, prevaleceremos, não nos renderemos, continuaremos à procura da solução.
Persisti e esclareci o que para mim pareciam milhares de dúvidas. Mas como ser humano que sou e mulher que não posso deixar de ser, continuei nas minhas congeminações, na minha formulação de teorias, no meu mundo imaginário de conspirações.

Quando a minha cabeça entra em divagações e o meu espiríto tenta alcançar respostas, os meus pensamentos entram no turbilhão descendente que me amarra e vergasta constantemente sobre o chão, a minha cabeça começa a ganhar peso e enojo-me por dentro, fico triste e os meus dentes e olhos cerram-se. Que dor sem doer. Fico agitada, sinto picadas invisíveis por todo o corpo. A dúvida das dúvidas me consome. Obtive já, a resposta ao, o que sou para ti? O quanto sou para ti? Agora falta - Queres-me?

Dias e sóis passam, vento que volteia, chuva que tarda a chegar. Poeira que sobe e que desce, raio de luar que queima. Assim o tempo passa, e quando o dirás?
A tua resposta surge:
Também por mim o tempo passa, e a resposta ao que me pedes, será a resposta do tempo sobre o meu corpo e a minha mente. Quando o meu cérebro arder com a febre de meus pensamentos em ti é porque te quero. Quando os meus pulmões não poderem aspirar outro perfume que não seja o do teu corpo é porque só de ti necessito como ar para viver. Quando sentir as minhas mãos algemadas e incapazes de se abrirem é sinal que não precisarei de fazer mais nada, que não seja agarrar-te, entretecer-te ao longo do meu corpo, encadeada pelos meus dedos. Quando deixar de ter fome, sede ou frio é porque te quis bem e tu cuidas-te de mim. Quando as minhas pernas tremerem e não for capaz de dar um único passo, saberás que és minha, porque deixei de ir mais longe, passou a bastar estar junto de ti. Meu corpo falará por mim. Deixarei de ter sentidos. Nada em mim fará sentido porque te vou dizer que te quero. Quando todo esse tempo passar e o meu corpo e mente te falar no silêncio dos meus gestos, não te impacientarás jamais porque terás entrega escrita sobre a pele.

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