Correio do Minho

Braga, terça-feira

Amor de mãe

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2016-03-07 às 06h00

Carlos Pires

1. Foi em 2013, há exatamente 3 anos, que, neste mesmo Jornal, assinei uma crónica com o título ‘Ser mãe é padecer num paraíso’, na qual versava sobre o lado patológico desse ‘amor de mãe’, a propósito de factos ocorridos na altura e que envolviam a morte de crianças por ação das respetivas mães:
- Dezembro de 2012, Alenquer: duas crianças, uma menina de um ano e um menino de três, foram encontradas mortas, fruto de um incêndio na habitação provocado pela própria mãe, que fugira. O quarto estava fechado, com a porta trancada e sem chave.
- Janeiro de 2013, Oeiras: duas crianças, de 12 e 13 anos, foram encontradas mortas no interior de um carro, tapadas com uma capa amarela. A mãe, que terá envenenado os filhos, suicidou-se.
Voltou a acontecer. No passado dia 15 de Fevereiro, uma mulher, de 37 anos, arrastou as duas filhas, de 19 meses e de quatro anos, para a morte, nas águas da praia da Giribita, Caxias, logrando sobreviver. Uma história demasiado trágica para ser verdade e que nos deixa perplexos. Na verdade, o ato de uma mãe que decide matar os filhos é o mais contranatura que poderemos imaginar. O amor de mãe não é incondicional? O que levará uma mulher a ser capaz de matar frutos do seu próprio ventre?
Constato infelizmente que casos como estes são mais do que muitos e que estão a aumentar. Os noticiários e os jornais repristinam muitos outros: a mãe que se atirou da ponte D. Luís, no Porto, com o filho de 6 anos ao colo; a mãe que matou os dois filhos com uma faca elétrica, em Viseu… Na semana passada, o corpo de um rapaz de 15 anos foi encontrado, tapado por alguns ramos, com fios elétricos à volta do pescoço, num terreno baldio, próximo da casa onde vivia, em Portimão. O principal suspeito do crime será o padrasto. A mãe terá conhecimento de factos decisivos para a investigação do crime.
Afinal porque morrem tantas crianças vítimas de quem as deveria proteger? Conflitos na regulação do poder paternal, a situação de crise económica e social que o País atravessa, transtornos de personalidade ou perturbações psiquiátricas, mera vingança - eis alguns dos fatores apontados pelos especialistas. Poderá o desespero, um quadro em que as mães não conseguem “ver uma luz ao fundo do túnel”, justificar que matem um filho? Haverá o “homicídio altruísta”, isto é, segundo as palavras de alguns psicólogos, situações em que a mãe mata o próprio filho para evitar que este venha a sentir o mesmo sofrimento que ela tem no momento? Como se de prova de amor se tratasse… Que amor é esse? O amor (visceral) de mãe?
Sou advogado e passam pelas minhas mãos casos e situações limite de vida, experiências dramáticas, pelo que já pouca coisa me surpreende. Contudo, devo confessar-vos esta minha ‘limitação’, não consigo, continuo sem conseguir perceber que se matem filhos, seja porque se acha que não são felizes, seja para impedir o pai de ficar com eles, seja por ódio ou vingança. Não consigo perceber. Será que estas mulheres, que mataram os filhos com as próprias mãos, algum dia sentiram verdadeiro amor de mãe?


2. Morreu, há 15 dias, Umberto Eco, escritor e filósofo italiano. Os seus livros fizeram-me companhia, desde a adolescência. Sim, eu teria 15 anos de idade quando literalmente devorei ‘O nome da rosa’, romance que viria a ser adaptado ao cinema, com Sean Connery no papel principal.
Recentemente, tive a oportunidade de ler ‘O cemitério de Praga’, um romance histórico interessantíssimo, cuja ação se desenrola nos tempos que antecederam a 1.ª Guerra Mundial, carregado de intrigas e jogos de poder onde reinam espiões e interesseiros.
Há uma frase do livro que retive, pelo sentido da mesma e pela sua atualidade, transversal de resto a todas as relações humanas: “o ódio é a verdadeira paixão primordial. O amor, sim, é uma situação anómala”. Estou cada vez mais convencido disso.

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