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Amigos no bolso ou na palma da mão

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2011-12-26 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A época de Natal fica marcada (é assim todos os anos) por inúmeros desejos de amizade, paz e prosperidade.
Todos nós, de uma forma ou de outra, acabamos por enviar e receber mensagens de Natal e de boas festas, usando diferentes métodos e formas. No entanto, a forma como o fazemos nem sempre foi assim.
Vejamos que até ao início do séc. XIX, as mensagens e desejos de boas festas eram transmitidos pessoalmente, deslocando-se as pessoas a casa uns dos outros para, em presença física, e normalmente levando uma pequena recordação, expressarem os votos de felicidades. Eram desejos transmitidos a poucas pessoas, mas eram sentidos e até emotivos. Então, eram poucos os amigos, mas eram verdadeiros amigos.
Quando, em 1843, surge em Inglaterra o primeiro postal de Natal (uma encomenda de Henry Cole, director de uma empresa, escritor e editor, a John Callcott Horsley, um pintor), deu-se início a uma nova forma de felicitações na época de Natal. A partir do ano seguinte, e de uma forma cada vez mais crescente, o hábito de oferecer postais de Natal enraizou-se um pouco por todo o mundo, substituindo as tradicionais cartas de Natal, escritas de forma pessoal e única. Foram aumentando o número de amigos a quem enviávamos postais de Natal, ao mesmo tempo que a proximidade nos relacionamentos diminuía.
O hábito de enviar postais de Natal manteve-se durante praticamente todo o século XX. As pessoas compravam um postal de Natal e escreviam, com a sua própria letra, uma mensagem de Natal para os seus familiares ou amigos. Apesar disso, as pessoas seleccionavam os seus amigos (os verdadeiros), para lhes enviar um postal de Natal. Enviavam-se então postais para qualquer parte do mundo, optando os destinatários, por norma, por os guardar durante muito tempo e até por os expor na árvore de Natal. Os amigos iam aumentando, também na proporção dos postais que eram enviados.
Nas últimas décadas do século XX, essas mensagens foram substituídas pelo telefone. Era habitual, em muitas casas, na véspera de Natal, as pessoas telefonarem aos seus amigos para desejar-lhes, pela sua própria voz, um Feliz Natal. Estas mensagens, que apesar de tudo eram pessoais, transmitiam alguma proximidade e veracidade aos desejos que estávamos a expressar.
Na primeira década deste século, e com a evolução tecnológica que temos vindo a assistir, a maioria das pessoas passou a optar pelo envio de mensagens através do telemóvel: desejava-se boas festas a um maior número de pessoas mas nelas, geralmente, não havia intimidade nem veracidade naquilo que se dizia. Escrevia-se, normalmente, um texto de mensagem no telemóvel e enviava-se a mesma mensagem para dezenas, até centenas de pessoas. Os amigos continuavam a aumentar de uma forma ilusória. Aumentava a ilusão de termos muitos amigos, na proporção do aumento da solidão.
Na actualidade, a maioria das pessoas opta por desejar boas festas a todas as suas centenas, até milhares, de “amigos” que têm no facebook. Escolhem uma imagem, ou um vídeo muito bonito, que circulam nesta rede social, a maior parte das vezes desconhecendo o seu autor, para os enviarem, automaticamente, aos inúmeros, inesquecíveis e grandes amigos que julgam ter. Geralmente estes respondem, quando respondem, com um simples clique em “gosto”. E ficam muito contentes a contar as suas amizades.
Antigamente, as pessoas tinham poucos amigos, mas nunca andavam sozinhos na rua. Actualmente, há pessoas com centenas, até milhares de amigos no facebook, mas andam sozinhas e quase a “pedinchar” um amigo com quem possam conversar um pouco, enquanto tomam um café. Que estranhos relacionamentos são estes? Que estranhos são estes amigos, solitários, melancólicos e até tristes!
Atendendo a que temos internet nos telemóveis, e muitos deles cabem na palma de uma mão, podemos afirmar que não falta quem ande sozinho, mas com milhares de amigos no bolso ou na palma da mão.

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