Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Ambiente e Saúde

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2010-10-13 às 06h00

Pedro Machado

Falar de Ambiente é indissociável de se falar também de Saúde. Da sua salvaguarda e das ameaças que sobre ela pairam, a vários níveis.
Saúde leva-nos a falar daquilo de mais precioso que poderemos ter, mas também dos serviços que a promovem, defendem e tratam. É destes últimos, dos hospitais, que me proponho falar nesta crónica.

Na nossa cidade possuíamos um serviço de saúde, no qual, optar pelo serviço privado, em vez do serviço público era uma questão meramente “hoteleira”. Sou pai de 3 filhos e só porque possuo um seguro de saúde optei sempre, para os seus nascimentos, pelo serviço privado, mas meramente por razões de “hotelaria”, uma vez que, em termos de recursos humanos e equipamentos, o Hospital de Braga possuía os mesmos médicos que as clínicas, do melhor que há em Portugal e até internacionalmente, e as melhores condições a nível nacional.

No entanto, actualmente, os meus receios são diferentes. Temo que o nosso serviço público, o nosso hospital, gerido há cerca de um ano por privados, se venha a tornar numa situação de má qualidade de serviços, a exemplo do que se passou com o Hospital Amadora-Sintra, com a gestão privada, por via do progressivo abandono de muitos dos seus médicos mais qualificados. Má gestão desmotiva e afasta os melhores.

Espero que os nossos profissionais, considerados como do melhor que existe no mundo, nomeadamente na área da neurocirurgia (infelizmente, por razões familiares próximas tenho essa experiência, foi-me dito por um médico do Neurology and Neurosurgery Hospital, em Londres, ao qual recorri, que o trabalho desenvolvido pelo neurocirurgião do Hospital de Braga, não era apenas bom em Braga, mas em todo o mundo era um trabalho de excelência) não deixem de prestar serviços no hospital público e passem apenas para o privado, no qual não estão acessíveis a toda a gente.

Por estas razões, quando vejo profissionais como o Dr. José Matos Cruz, por muitos considerado um dos melhores especialistas portugueses na área da Obstetrícia e do Diagnóstico Pré-Natal, a abandonar o serviço público, porque à administração só interessam números e rácios, esquecendo valores de sabedoria, de conhecimento e de experiência, fico preocupado.
Tenho esperança que o nosso hospital não seja, cada vez mais, uma máquina que se gere tendo em conta apenas questões económicas, deixando fugir para o privado os nossos melhores médicos especialistas, enfermeiros e outros profissionais, com experiência adquirida junto dos melhores da área, sendo trocados por recém-licenciados, que poderão vir a ser tão bons ou melhores do que estes, mas que, neste momento, não têm qualquer experiência, nem terão a oportunidade de aprender com os melhores.

Para além de recursos humanos, assiste-se também a situações em que os hospitais das parcerias público-privadas não só querem “duplicar, triplicar consultas”, mas também, “só fazerem intervenções cirúrgicas rentáveis”, mas também transferir para os Cuidados de Saúde Primários (Centros de Saúde) despesa relacionada com medicamentos, exames que não são efectuados no hospital e transportes, tudo por questões económicas.

Se continuarmos neste caminho, vamos ter de contratar médicos e enfermeiros mais baratos mas sem a experiência, o know-how e a qualidade destes profissionais, que estão a abandonar o serviço público e nos quais, durante longos anos, o Estado investiu para a sua formação.

Lamento que, mais do que nunca, se caminhe para uma situação em que o acesso a serviços de qualidade estará cada vez mais dependente de quem tem recursos. Espero que esta gestão privada não seja apenas uma questão de números, de rácios, mas também de qualidade e equidade.

Apraz-me, por isso, referir que me preocupa o que se está a passar no nosso hospital, no hospital da minha cidade e temo que, no futuro, se venha a ter um bom edifício hospitalar mas sem correspondência ao nível da qualidade e efectividade do que lá se irá produzir.
Lamento esta situação do Hospital, agora, Escala Braga e, como tenho vindo a dizer, espero que um dia se “recompre” o Hospital de S. Marcos!

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