Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Amar é...

O mito do roubo de trabalho

Conta o Leitor

2018-08-08 às 06h00

Escritor

Autor: Márcio Gois

Um trago amargo na garganta. É o álcool do uísque, misturado com o sabor nauseante do coração a lacrimejar. Porque chora? Porque continua insistentemente a chamar por quem já não o ouve? Talvez por ter saudades de ser amado e por querer ser novamente amado.
Amar tem assim as suas vicissitudes. Umas vezes faz-nos sentir bem, sem medo algum de encararmos o outro, outras vezes faz-nos sentir mal, com vontade de partirmos e nunca mais voltarmos. Esperar, dar tempo ao tempo. Olhar o futuro com os dois pés bem assentes no presente. Amar é a arte mais bela, mas é também ao mesmo tempo a mais complicada de realizar. Para amarmos temos de duplicar-nos em múltiplos heterónimos, com diferentes habilidades artísticas. No fundo, temos que ser não só galantes, mas também cantores, escultores, escritores, médicos, esteticistas, e um número sem fim de artistas em outras áreas.
Amar é inventar novas formas de mostrar que se ama. Amar é querer. Amar é estar. Amar é temer. Amar é deleitar. Amar é arrepender. Amar é perdoar.
Amar é retirar sentido à vida, tornando-a fugaz e minimalista. É tudo, e ao mesmo tempo, nada. O amor torna assim o feio em Belo, o finito em Infinito, o frio em Calor, a morte em Vida, o pessimismo em Otimismo, a apatia em Alegria. A falta de amor, por sua vez, traz novamente consigo o feio, o finito, o frio, a morte, o pessimismo e a apatia.
Mas quem na verdade ama, ama. Não olha a meios. Tem somente um fim: o de estar com a pessoa amada, seja onde e quando for!
Amar é, por outro lado, uma vontade, quase insana, de devorar em todos os sentidos possíveis e direi até impossíveis, a pessoa amada. Amar é também deixarmo-nos consumir pela loucura. Pelo crescente fervilhar do sangue durante a excitação do pênis e da vagina. Amar é ainda tocarmos com as mãos, ao de leve, nas omoplatas da pessoa amada, à medida que não só a olhamos em todo o seu esplendor, mas que também vamos descendo com os dedos, até chegarmos ao ponto de a amarrarmos com ferocidade pela anca, encostando logo, sem suspirar, o nosso pênis em suas nádegas.
Amar é encostarmos a boca à orelha da pessoa amada para trincamo-la, enquanto lhe dizemos palavras provocatórias de lhe cortar a respiração. Amar é virarmos a pessoa amada de frente para olharmo-la teso de vontade. Vontade de a consumirmos por dentro. Amar é beija-la com os lábios e a língua, ressabiada de saliva. Encher-lhe, com um certo menosprezo, os poros da língua com a nossa viscosidade salivar.
Amar é querermos lhe arrancar a roupa com os dentes e os dedos para devoramo-la selvaticamente, como se não houvesse amanhã. Possuímo-la por dentro, sem peias nem constrangimentos biológicos. Amar é perdermos a consciência de que somos conscientes, deixando-se cada um consumir pelo desejo de trincar e arranhar o outro, ao ponto de ambos cavarem a pele com as unhas, deixando a carne dos corpos a degradar-se a céu aberto.
Amar é mais que estar. É também entrar no que há de mais íntimo na pessoa amada. Fazê-la atingir o ponto g somente com os dedos, em suaves movimentos circulares. Leva-la à loucura. À insanidade física e mental. Amarrar-lhe, sem rei nem roque, pelos cabelos, ao ponto de se partirem. Marcar-lhe a roxo as palmas das mãos nas nádegas. Deixá-la fora de si, com vontade de ter mais e mais e mais e mais... E é monta-la à canzana, de quatro ou até a fazer o pino, penetrando-a bem lá no fundo. Ouvindo-a gemer longamente de prazer, até ao ponto de gritar orgasmo. Parando somente quando o cérebro caia inanimado no travesseiro.
Amar é amar, seja na forma tentada, seja de um modo menos convencional. No fim de contas, que mal tem o sadismo? E de que outras formas haveria de ser o amor?
Pois na verdade amar é...

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