Correio do Minho

Braga, sábado

Alquimia Judicial

Consumidores mais habilitados a comparar comissões bancárias a partir de 1 de outubro

Ideias

2016-09-26 às 06h00

José Manuel Cruz

Surpresa alguma confessarei no dia em que, envergonhada, a Justiça concluir que acusação nenhuma está capaz de deduzir ao encontro de José Sócrates. Muito se afadiga, o Ministério Público, em montar caso sólido contra o ás do gamão, mas a barca saloia borrega entre miragens: a prova, a maldita prova das malfeitorias do desbragado primeiro-ministro, essa escapa-se diante do olhar parvo do diligente magistrado. Ele bem quer, mas o marau não deixou rabos-de-palha que ardam fogosos. Anunciam-se novas linhas de inquérito, parece que desta é que a coisa vai, que agora se apanhará a pista a tinta simpática do pastel embolsado sem escrúpulos. Mas é um cómico déjà vu.

Atiraram-se a José Sócrates com mais olhos que barriga. Estava chapado, no estilo de vida do cavalheiro, que ele destrocava bilhetes de banco com a prodigalidade de velho volframista, e que tamanha abastança só poderia vir da gorjeta choruda, da comissão indevida, do arranjinho milagreiro, do despacho retido até que bojudo envelope aterrasse em mudo banco. Tudo verdade? Tudo suspeita de fantasmática consistência? Tudo cabala de inquisidores aprendizes? Por quantas vidas públicas pode escroque habilidoso praticar crimes quase perfeitos? E não ter o sistema político esquema de controlo de qualidade que permita perceber de que massa se fazem os homens que assinam!

Não sejamos anjinhos: o imbecil é apanhado mal ponha pé em ramo verde. Já o figurão, o sumo artista, esse pode sair em andor de bela alhada, e a cantar de galo. Com efeito, ele há o que Justiça pode provar, e o que ela jamais chegará a documentar irrefutavelmente, sobretudo quando se precipita e desata a queimar etapas de meticulosa e paciente investigação. Diga-se o que se disser, acreditarei, sempre, que, em sociedade sadia, as justiças podem investigar sem que o visado se dê conta, e reunir prova prima sem que o futuro réu suspeite que a teia viscosa em que balança não é a cama tranquila de rede em que se espreguiça, mas a armadilha das facilidades em que se julga mestre e senhor; até que lhe sobrevem o insólito, e ei-lo que se despenha pela pereira abaixo, o trampolineiro.

Mas talvez não vivamos numa sociedade sadia, talvez não disponhamos dos mecanismos de alerta, dos ralés, das redundâncias, que destapem e catapultem a prova da marosca. Talvez vivamos, pelo contrário, numa sociedade que se especializou na dissimulação, na paródia investigativa, no policial vaidoso e no magistrado satirizável pelos passos dados em falso. Sim, é possível que vivamos numa sociedade de folhetim, numa sociedade tal que, justiças bastardas, queimem uns e chamusquem outros, e que a argolada seja cozinhada atrás do biombo e o papel distribuído a quem de antemão se perceba que vá falhar, convenientemente, mas com singela ingenuidade.

Ah! Eis-me a mim caído na teoria da conspiração, mas ao contrário: não é que a investigação é trôpega, deliberadamente, para dar a sensação de que se persegue, quem de facto se procura exonerar de culpas? - E o escândalo - perguntarão. - É fita - direi. - Mas o homem esteve no calabouço! - É fita - repetirei - e belamente urdida; safa-se com uns mesitos de baixa judicial. Sai em mártir e, quem sabe, indemnizado por danos morais e patrimoniais.

Compro a teoria da conspiração, e vou a jogo. Rebato a cartada da teoria da perseguição com a bisca de trunfo da teoria da simulação. Ah! Sócrates, que bem blefamos nós! Salva-se o denominador comum, é claro: tanto tu, como eu, sabemos que a Verdade nem sempre se cruza de frente com a Justiça, que os casos podem ser montados e desmontados segundo as conveniências e que, quem dá o corpo ao manifesto, pode nem chegar a saber a que enredo se prestou. Mais topamos os dois, Zé, e connosco a extensa comunidade política, que a coisa continuará igualzinha enquanto não avançarem com uma leizita do enriquecimento ilícito, essa geringonça malvista que inverte o ónus da prova, essa abordagem de pirata puritano à nau das Índias das liberdades individuais.

E assim vagueia, aluado magistrado, de mapa de tesouro em punho em labirinto de buxo de geometria exemplar, reunindo vagos indícios e sólidas lacunas, na esperança de que, dos dados dispersos, por maga combinação alquímica, ganhe forma o argumento a que não chega por simples alinhamento de causas e efeitos. É possível que, algures, se solte mola mal travada, e que a prova concludente se conjure do nada, evento que todavia não se deu nos anos que leva o filme. Eu, Zé, quero lá saber se as fizeste, ou se, no fim de contas, te safas por uma beirinha. A questão, mesmo, é que se passaste as mãozinhas pelo mel, como as coisas estão, e como vão ficar, outro que venha se servirá do mesmíssimo menu. E que bem lhe saiba, já agora.

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