Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Ali-Babá e os Quarenta Ladrões

Bibliotecas humanas

Ideias

2011-02-04 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Nos nossos tempos de menino foi-nos muito gratificante a leitura do livro “As Mil e Uma Noites”, uma compilação de contos e histórias de origem e sabor árabe que muito nos entusiasmaram, perdurando na memória do tempo as figuras incontornáveis de uma Xahrezade no seu afã de contar histórias e manter viva a curiosidade do Rei Xahriar, assim obstando a uma morte anunciada já que todas as manhãs matava a donzela com havia dormido. Histórias de fácil e agradável leitura e capitoso enredo onde o fausto, o fetichismo, o esoterismo e o esplendor dos palácios, o flamejante brilho do ouro e da riqueza se entrelaçavam e se enredavam com toda uma magia e o exotismo de personagens insuperáveis e insólitas como a de um Aladino e sua Lâmpada, de onde evolava e se soltava um Génio que satisfazia os desejos-ordens do seu senhor, o portador da Lâmpada, após a devida “esfregadela”, e ainda a de um Ali-Babá e os quarenta ladrões que escondiam os produtos de suas rapinas, e muito ouro e jóias, numa gruta secreta prenhe de riquezas e mistérios.

Uma gruta ou caverna onde o acesso só era possível através de um “Abre-te, sésamo”, palavras mágicas essas que propiciavam a abertura da entrada e todo um acesso à esplendorosa visão das muitas riquezas acumuladas.

E se a Lâmpada de Aladino, bem como o Génio que se libertava e assomava após a esfregarem cumprindo então três desejos do seu senhor, sempre nos marcaram, entusiasmando e dando-nos alento e coragem nos caminhos da vida, levando-nos a não abdicar nunca de “esfregar” sempre os nossos brio, amor próprio, sentido de verdade e justiça, vontade e potencialidades em ordem à prossecução das metas a que nos propunhamos, a verdade é que a história de Ali-Babá e dos seus quarenta ladrões, ultrapassados os limites da magia, da ilusão e da fantasia, sempre nos transportou para a dura realidade dos dias de hoje. Em que abundam, note-se, muitos Ali-Babás e ladrões, e cada vez mais!...

E tudo isto nos veio à mente a propósito da recente viagem de Sócrates ao Golfo Pérsico, a Doha no Qatar, a Abu Dhabi, aos Emirados Árabes Unidos, por nos fazer reviver toda a magia, mistério, luxo e exotismo do mundo árabe e as estórias de sultões, vizires, odaliscas, eunucos, haréns, palácios e jardins de sonho, levando-nos para todo um universo diferente em costumes, vivências, sentires, pensares e riquezas, como é de todo óbvio, ainda que se tenha por seguro que Sócrates não foi tão só mais um turista-embaixador das eventuais mais valias de Portugal, já que intentou interessar o mundo árabe na nossa economia e “«vender» Portugal como um bom destino de investimentos” (JN 17.1.11).

Procurando assim “relançar a economia e estreitar as relações comerciais”, mas também, admita-se, “aliciar as autoridades do Doha a comprar a dívida soberana”, de modo a poder ultrapassar-se as graves dificuldades que o país atravessa com a dívida pública e descalabro reinante face a uma grassa desconfiança dos credores externos e seus reflexos perversos nas taxas de juro.

Claro que Sócrates negou logo tal aliciamento ao contrário de Luís Amado que “admitiu a existência de conversações com as autoridades do Qatar com vista à possível compra de dívida pública portuguesa” (id.), uma contradição a que já estamos habituados, como também já nos acostumámos às suas usuais posições. Aliás quando Sócrates nega alguma coisa é de todo incontornável que tal é verdade e aconteceu, sendo certo que de modo nenhum se estranharía que capitais árabes invadissem a nossa economia, mormente no quadro das privatizações já alinhavadas e noutras oportunidades de investimento. Até porque, já mais tarde, Sócrates lá veio esclarecer que isso “não é uma questão de ajuda, é uma questão de investimentos e a nossa dívida está no mercado” (JN, 19.1.11).

Tal como aquando da sua viagem à China, Sócrates tem vindo a “negociar” a nossa dívida pública, sendo inquestionável e incontornável todo um processo de endividamento e de “venda” do país por quem, tal como uma Xahrezade dos tempos modernos, vem “adormecendo” e “entretendo” o povo português com muitas histórias ao longo das suas mais de mil e uma noites de utopia, engano e de miséria, servindo-se sobretudo da magia da palavra e do fetichismo da mentira, quando na realidade não é nenhum Aladino nem portador de uma Lâmpada mágica de onde se “solte” um Génio que seja benéfico para Portugal.

Que continua, e cada vez mais, com muitos Ali-Babás e seus ladrões, muitos mais dos que os quarenta do tempo de Xahrezade, que em paraísos fiscais, off-shores e em contas na Suíça têm a bom recato os resultados das suas pilhagens, rapinas e pulhices, por norma obtidos graça às magias e fetichismos da política, do poder e dos compadrios, mas se arvoram sempre em “sultões” de uma moral de conveniência.

Aliás enquanto nos EAU campeiam os petro-dólares e uma riqueza derivada das existência e produção de petróleo, não faltando príncipes, reis e sheiks como mecenas disto e daquilo, donos de clubes de futebol e senhores de outros e variados mundos de concretização de riqueza, aqui, e desde há muito, para além duma pobreza e miséria geral tão só proliferam os político-euros dos mil e um aproveitadores, “videirinhos” e demais convivas do poder, muitos deles apresentando-se como autênticas “odaliscas” no harém da governação, por norma recrutados nas administrações da banca, empresas públicas, institutos e fundações às quais mais tarde regressam e onde são “asilados”, ainda que sempre prontos para novas funções devido à acção e intervenção de certos “eunucos”.

Mas sempre, diga-se, sem que surja alguém a dizer um “Abre-te, sésamo” que escanqueire de vez as portas da decência, da moral, do pragmatismo, da verdade, da realidade e da justiça e ponha termo a toda esta já cansativa e perversa história de Ali-Babás e ladrões, a mais “contos” de Xahrezade, às magias de noites e dias de mentira e a todo um incontornável ouropel.

Aliás o futuro assusta-nos, sobretudo pelos nossos filhos e netos, temendo-se fundadamente que a “venda” de Portugal por Sócrates descambe numa desgraça total, com o desaparecer de um país pequeno, respeitável, trabalhador, sério, com toda uma identidade e as mais valias de uma história, cultura e moralidade de séculos, que de modo nenhum pode ficar nas mãos de um qualquer Aladino e das “esfregadelas” de uma fantasiosa e ilusória lâmpada. Até porque do Génio que evolou e se soltou da lâmpada do poder tão só advieram ideias loucas, teorias bacocas e utópicas e toda uma bancarrota, fome e latrocínios, sendo de todo inquestionável que isto da dívida soberana não é um simples negócio de venda de mais um “Magalhães”.

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