Correio do Minho

Braga, sábado

Algodão doce

Consumidores mais habilitados a comparar comissões bancárias a partir de 1 de outubro

Ideias

2017-09-05 às 06h00

José Manuel Cruz

Com que frequência mudamos de sentido de voto? Quantos obstáculos não temos que vencer, a quantos atrevimentos não temos que nos dar, para subtrairmos a confiança algum dia alocada a um candidato - o nosso, pois, o que em passado recente triunfou!
Quão meticulosamente seguimos o desenrolar de um mandato? Quão justos, rigorosos, somos no espiolhar do dia-a-dia dos autarcas? Quão facilmente nos deixamos ludibriar - pelo que não foi feito, pelo que foi feito ao arrepio do prometido?

Por que é que o nosso candidato, que ilude promessas, que reporta para mandato ulterior o que não teria tido oportunidade de realizar - segundo diz, com sorrisos branqueados e branqueantes - é um santo, tanto como embusteiro é o da oposição, quando recorre às mesmas estratégias dilatórias?
Ou acaso não cai na demagogia, o santinho da nossa devoção? Nunca! Ou acaso o nosso campeão é homem de horas dobradas, quarenta e oito por dia - atestadamente - ao serviço das populações? Vede-o, que emagrece, o pobre, os olhos que se lhe encovam. São as canseiras, as arrelias! Cruzes: como ver-lhe podem defeitos? - soletra beato adepto, benzendo-se. Transparente, como nenhum; honesto, como nenhum, eficaz, como nunca se viu. Ei lá, amigo, calma, ou ainda entra em órbita, o seu cabeça de lista, de tão leve de máculas e pecados, de tão isento de erros ou manigâncias.

Votamos, uma e outra vez da mesma forma: por convicção? Por balofo espírito de grupo, por carneirada? E não nos julgamos - todos nós - individualidades, almas animadas de consciência crítica? Mostrem-me um cavaquista! Bem sei que poderia pedir que me mostrassem um soarista, ou um guterrista, ou - em desespero de causa - um socratista. Mas, lá está: todos nós sabemos que os primeiros socialistas foram maus, a botar para o vomífico. Já o Cavaco! O que não fez, o homem! Tanta unanimidade beatífica, e tão bestinha que o cavalheiro foi à frente dos destinos da Nação, pela revisão crítica.

O erro do político é sempre o erro de quem confia o voto. Mexe, o homem que para lá vai, por procuração. Poderá mexer por nós, mas, sem ilusão, mexerá sempre por ele, por aqueles que próximos lhe são.
Acabamos de atravessar uma eleição planetária - as presidenciais francesas. Permitido me seja recordar que, em três meses, Macron erodiu um terço da sua taxa de aprovação - bem abaixo está de Hollande e de Sarkozy para o mesmo lapso temporal. Criatura bacoca de que risíveis são as facturas em cosméticos. Quantos, dos 22%, dos desapoiantes de hoje, lamentarão não ter votado Le Pen ou Mélenchon?

Não queria ir por aí, mas obrigado me sinto a referir que o tal de Mélenchon é indicado, por 58% dos sondados, como o líder previsível, em próximo pleito eleitoral. Acabará por não ser, que o grosso dos votantes teme as escolhas ditas radicais. Convençamo-nos, porém, de um facto: os radicalismos não existem, não têm margem de manobra em democracias estabelecidas, e as solidariedades com Venezuelas e Coreias são sobrevivências caricaturais, como o tio bêbado que arranja confusão nas festas de família, mas que a ninguém passa pela cabeça empontar para o meio da rua.

Deixamo-nos levar pelo algodão doce que nos servem em vésperas de eleições: por obra polémica que não avança, por festa que organizada é com pompa dobrada, pelos senhores que amiúde passam na rua, e cada vez menos de telemóvel na orelha. Trocamos o teste do algodão pelos fios de açúcar, que em nada se desfazem nos lábios, e nem beijos de amor mimam.
Um mês para reflectir, quatro anos para arrastar pés. Uns há que não mudam, desde os tempos de Noé; outros há que flutuam. Enfin: vive l’aventure.

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