Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Ainda a trágica parceria no hospital

Escola em mudança

Ideias Políticas

2012-12-11 às 06h00

Carlos Almeida

Três anos depois de a gestão do Hospital de Braga ter passado para as mãos do grupo José de Mello Saúde, no âmbito da parceria público-privada relativa à construção e gestão do novo hospital, eis que somos confrontados com a evidência de que poucos falaram e outros, menos, quiseram saber. A parceria, afinal, era uma emboscada.

Notícias vindas a público muito recentemente dão conta da (aparente) situação aflitiva por que está a passar o grupo Mello na administração do Hospital de Braga. Chegam mesmo a admitir a possibilidade de não se conseguir evitar um cenário de falência. Dizem os gestores do hospital que não podem continuar a acumular prejuízos, alegando que se tem verificado alterações contratuais.

É fácil de perceber que, com esta jigajoga, o que pretende o grupo Mello é renegociar a parceria com o Estado e, a partir disso, obter melhores resultados financeiros, ou seja, alcançar os tão desejados lucros que motivaram a entrada no negócio.

Assim, está colocado um sério problema. Que é o de saber se é legítima essa pretensão do grupo privado, sabendo que este, quando se apresentou ao concurso, fê-lo conhecendo as condições e o programa. Não menos interessante é o facto de o grupo José de Mello Saúde ter apresentado, na segunda fase do concurso, um valor inferior em 225 milhões de euros relativamente àquele que havia apresentado na primeira fase, o que fez levantar dúvidas aos outros concorrentes sobre a qualidade do serviço que estaria a ser proposto.

Tal facto põe a nu a estratégia do grupo vencedor, tornando evidente que este concorreu com um valor muito inferior ao preço real, esperando, mais tarde, como agora se confirma, vir a pedir a renegociação da parceria com o Estado. Não se terá tratado pois de erros de previsão ou, sequer, de uma generosa vontade de servir a comunidade por meia dúzia de patacos.

Parece assim que nada sustém a sofreguidão devoradora dos senhores do grupo Mello. E é certo que não descansarão e utilizarão todos os seus meios de pressão para conseguir condições que lhes sejam mais favoráveis, desde logo, mais dinheiro, o que exigirá uma forte oposição das populações.
Entretanto, continua a degradação dos serviços de saúde prestados aos utentes. Nem os mais desatentos conseguem dizer que tudo vai bem na gestão do hospital, embora alguns deputados do CDS o tivessem dito, numa deslocação recente às instalações hospitalares.

Dia para dia somam-se as queixas e reclamações dos uten-tes. Dos que, já depois de estarem no bloco operatório, vêem as cirurgias canceladas. Dos que, impacientemente, aguardam consultas de urgência que nunca mais chegam. Dos que vão a uma simples consulta e acabam sendo notificados para pagar exames de que nunca ouviram falar.
Cresce também o descontentamento dos profissionais. Há já quem receie não receber o salário no fim do mês. Há quem já não aguente a pressão para cumprir metas impossíveis de atendimento de utentes por hora, pondo em causa o tratamento clínico. Há fornecedores que já não entregam material porque o hospital não paga e acumula dívidas.

A situação actual na gestão do Hospital de Braga mostra muito mais do que um modelo de parceria público-privada que não foi bem desenhado. É, isso sim, a prova que faltava, a quem ainda tinha dúvidas, de que as parcerias público-privadas são, todas elas, ruinosas para o erário público, devastadoras para os cidadãos e, absurdamente, um tesouro sem fim para os grupos privados.
A saída só pode passar por rasgar a parceria, pondo cobro à destruição de um serviço tão indispensável como o é a prestação de cuidados de saúde aos cidadãos.

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