Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Ainda a propósito da comemoração do Dia Mundial da Filosofia

O espantalho

Ideias

2016-12-04 às 06h00

Manuel Barros Manuel Barros

Tenho plena consciência, que um espaço de opinião mobiliza a curiosidade e o interesse dos leitores, pela pertinência e a utilidade dos temas que são tratados. Um interesse que consubstancia o protagonismo dos seus intervenientes, a intensidade da ação que congrega e a utilidade informativa com que é cotada, no que seio de uma comunidade. Uma valorização, que não deve descurar a actualidade e a capacidade de se enquadrar no cerne da reflexão e do debate, sobre os assuntos que estão na ordem do dia na sociedade portuguesa, ao nível local, regional e nacional.

Apesar desta constatação, e na convicção de se tratar de um tema relevante, decidi dar continuidade à reflexão que iniciei, a propósito da comemoração do Dia Mundial da Filosofia, e sobre a importância e a revalorização desta área do conhecimento, no atual contexto cultural e socioeconómico, o modo de uma breve visita ao “Ultimatum Futurista às Gerações portuguesas do século XXI”, de Almada Negreiros. Novamente, pela sua actualidade pela capacidade de antecipação em relação, à tendência marcadamente tecnológica do mercado, ao novo quadro convencional das elites, às novas circunstâncias sociais e às exigências do mundo do trabalho no nosso país.

Circunstâncias e exigências, que abrangem todas as áreas do conhecimento e de formação. Um novo paradigma que passa pela criação de novos conceitos, pela inovação, pela reengenharia dos processos, pela criatividade em resposta aos problemas de uma sociedade cada vez competitiva. Uma verdadeira rutura, que implica uma atitude de antecipação do futuro, fundada na valorização dos fatores de diferenciação e na capacidade de aprendizagem e uma nova cultura da iniciativa.

Da mesma forma, a formação superior já não tem a soberania do saber, um repositório detentor de um conteúdo pronto e acabado de conhecimentos de competências profissionais de cariz utilitário, porque tem que responder cada vez mais às exigências de adaptação às necessidades da sociedade. Exigências que reclamam uma formação científica baseada na manutenção do pluralismo filosófico, valorizada pelo capital cultural e intelectual que catalisa. Afirmando João Salgueiro, a propósito deste assunto e das competências das elites nacionais, que precisamos de “uma revolução cultural, a ser feita por uma nova geração, porque, actualmente, temos pouco espírito científico”.

Um processo que exige uma forte cultura de iniciativa, e uma liderança assente na luta contra o imediatismo, o facilitismo e na preparação do espírito ganhador”. Uma visão emergente em que conhecimento é visto, justamente como a maior ativo do mercado de trabalho, como fonte de poder, de liderança e de influência social e política, confirmando a actualidade da visão de Winston Churchill, quando preconizou que ”os novos impérios serão os impérios da mente”, a propósito da reconstrução da Europa, e do futuro da sociedade internacional.

Abrindo nesta perspetiva, novos horizontes no nosso sistema educativo, para a reflexão sobre as áreas de saber fundacionais da nossa própria civilização, em que a Filosofia desempenha um papel estruturante, de onde se desenvolveram e aperfeiçoaram todos os sistemas de organização, ao sistema de governo democrático, que ainda regem e constituem as democracias ocidentais.
Há quase dois milénios, os gregos já defendiam que a educação,devia ir além da mera transferência de habilidades técnicas, devendo centrar-se no desenvolvimento intelectual.

Modelo que se sustenta basicamente, na idéia de que a formação profissional deve, primeiramente, prever uma ampla base de conhecimento, sobre o homem e o seu mundo. Um factor de compreensão da vasta gama de áreas do conhecimento como a linguagem, a matemática, as ciências naturais, a história do pensamento e as suas realizações criativas e intelectuais.

Tendo a formação em Filosofia apesar de tudo, resistido ao teste de séculos, tem vindo a ser desvalorizada no nosso país, no âmbito do sistema educativo e nos seus modelos de desenvolvimento mais recentes. Acantonando-a na atividade docente, onde tem visto a seu espaço cada vez mais reduzido, a avaliar pelas reestruturações ao nível do ensino secundário e superior, ao contrário do que se está a passar noutros países. Uma área de saber que busca, acima de tudo, a preparação das pessoas, não apenas para o mercado de trabalho, mas para a vida e para a grande riqueza cultural e intelectual da sociedade moderna, que no sistema anglo-saxónica é assumida como base da pirâmide da formação superior.

É, neste contexto, que a Filosofia, pela sua valia estratégica, deverá ocupar um lugar cada vez mais destacado no mercado de trabalho, pela vantagem de poder desempenhar um papel instrumental na consolidação da sociedade da informação e do conhecimento, que apesar de tendência marcadamente tecnológica, terá incontornavelmente o “Homem”, no seu centro de gravidade.

Não é por acaso, que as organizações internacionais, reconhecem o papel ativo da Filosofia no mundo atual, como uma espécie de “engenharia humana “, determinante na construção das soluções para os problemas sociais, políticos, económicos e éticos, que se põem ao nível da responsabilidade social das empresas, da sociedade e do estado. Um papel que sustenta os alicerces da nossa civilização, que emprestou os pressupostos científicos aos modelos de desenvolvimento económico, às ciências sociais e humanas e às teorias da organização e que, em última instância fundamenta as ideologias e os sistemas políticos.

Uma força estruturante do sistema de ensino superior, que anula e desconstrói a visão redutora a que tem sido votada, cuja inversão representa, com toda a certeza, o culminar de todos os desafios que se põem na comemoração do Dia Mundial da Filosofia, estatuído pela UNESCO.

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