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Agere: a rendição de Rio

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Agere: a rendição de Rio

Ideias

2021-06-15 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

De há uns tempos a esta parte, temos vindo a ser surpreendidos por uma sucessão de anúncios, compromissos e desafios, alguns dos quais transportam uma certa ideia de progresso e, especialmente, pretendem fazer passar a ideia de que existe preocupação com a qualidade de vida e o bem comum dos bracarenses. Lamentavelmente, porém, toda esta agitação corresponde a um impulso mais ou menos cíclico que, no plano local, se repete a cada quatro anos, mas do qual, geralmente, não resultam quaisquer benefícios para a população. Ou seja, os efeitos práticos resumem-se aos tais fogachos noticiosos, de duração efémera, já que estamos perante ideias habitualmente idealizadas pelos publicitários da política, os famosos “spin doctors”, e que têm como objectivo primordial, quando não único, mediatizar um determinado candidato. Nada de novo, portanto.
Aparentemente, a repentina inflexão de Ricardo Rio em relação à Agere insere-se num plano do género, já que a sua nova posição sobre a empresa será compaginável com um plano de marketing político desenhado para mostrar uma abertura ideológica nunca antes manifestada, quer pelo edil bracarense quer pela coligação que o suporta. Se não, vejamos.
A abertura da Agere a capitais privados foi aprovada (também) com os votos dos partidos que integram a coligação de direita. De então para cá, nunca Ricardo Rio manifestou a mais ínfima disponibilidade para analisar a eventual reversão do processo. As propostas da oposição sobre essa matéria sempre encontraram um muro de silêncio que reflectia o desinteresse em alterar o que quer que fosse no que ao capital social da empresa se refere.
Agora, porém, a poucos meses das autárquicas a que concorre pela última vez, o presidente da Câmara surpreende-nos com a imagem de abertura política que pretende passar ao declarar-se “defensor da remunicipalização”. Aliás, para que não restem quaisquer dúvidas, Rio conclui, de uma forma definitiva, que “não há qualquer interesse particular em que (a Agere) se mantenha assim”.
Nesta sua mais recente encarnação político-ideológica, na qual parece pretender dar um novo impulso à sua imagem, Rio garantiu que “não há”, da parte da autarquia, “nenhum interesse” em manter 49% do capital da Agere na esfera privada.
Com este discurso do edil, que ainda enfatiza a tese de que a remunicipalização da Agere deve ser objectivo de qualquer presidente da Câmara de Braga, acabaram-se as vozes discordantes, pelo que, finalmente, foi alcançado o pleno das forças políticas nesta matéria, tão sensível quanto relevante. Subjaz, contudo, uma subtileza que, como é comum às subtilidades, faz toda a diferença.
Na realidade, em simultâneo com a assunção da nova postura, Ricardo Rio chamou a atenção para as dificuldades que o processo enfrentará mas fazendo uso de uma dialéctica que, em última análise, aponta para a inviabilidade da reversão. Por coincidência, ou talvez não, outros dirigentes do PSD vieram a terreiro secundar o argumentário utilizado pelo líder da coligação municipal.
Principiaram, desde logo, por valorizar o preço da empresa colocando dessa forma uma pressão suplementar sobre o detentor do capital público, ou seja, sobre o município, enquanto parte potencialmente compradora.
A Agere terá hoje em dia um valor de “largas dezenas de milhões de euros” e, no momento de avaliar o preço da sua participação, os privados que constituem o consórcio que detém 49% do capital não irão demonstrar “solidariedade social”. Esta, em síntese, parte da argumentação já avançada por Ricardo Rio para explicar o alto grau de dificuldade para viabilizar o negócio.
Embora sem abandonar a tese de que “a remunicipalização deve ser uma prioridade”, o edil considera que “não basta ter vontade política”. “É preciso que existam condições financeiras para a concretizar”, aduz ainda, insistindo na tecla do parceiro privado não vender a sua parte pelo preço que comprou há cerca de duas décadas.
Mas a machadada final no regresso da totalidade da empresa à esfera pública surge com o argumento da falta de capacidade de endividamento do município. E este, sim, é um argumento de peso, inatacável e dificilmente ultrapassável, principalmente porque a dissolução e liquidação da Sociedade Gestora de Equipamentos de Braga (SGEB) vai impossibilitar o recurso a empréstimos de vulto, como aqueles que são necessários para satisfazer os custos financeiros da operação de reversão da Agere.
Na verdade, o endividamento a que o município terá de se sujeitar para a liquidação da SGEB esgotará a sua capacidade, o que, de momento, não deixará margem para a compra dos 49% de capitais privados da Agere. Nessas circunstâncias, embora não impossível, tal operação será extremamente difícil a curto prazo.
A esta luz, percebe-se melhor que a mudança de opinião de Ricardo Rio não corresponde, de facto, a uma viragem empolgante do seu pensamento político- ideológico mas antes a uma operação de cosmética eleitoral que, naturalmente, se esgotará sem quaisquer consequências. O que é pena.

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