Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Agarrou-se à bola e não a larga

Uma carruagem de aprendizagens

Conta o Leitor

2014-07-09 às 06h00

Escritor

Éramos os clientes habituais do café da manhã. Chegávamos um pouco antes das oito horas, tomávamos o cafezinho e líamos, de relance, o jornal. Era o café do bairro que abria as portas mais cedo, logo pela manhãzinha. Quase não sabíamos os nomes uns dos outros, nem o que cada um fazia. Mas a rotina dava pistas da profissão de cada um. Eu não aparecia nas férias do Natal, da Páscoa, nem do Carnaval. Imagino que deveriam saber a minha profissão. Outros dois, que aparentavam ser amigos, deviam trabalhar na Caixa de Previdência porque, de vez em quando, umas senhoras falavam com eles. Mostravam uns papéis, questionavam e colocavam dúvidas. E, às vezes, diziam “Mas, se tiver problemas, apareça que a gente resolve”. E deviam ser assuntos lá da Caixa. Um já estava no café, quando eu chegava, sempre na mesma mesa, e sozinho. Tinha um pequeno defeito numa mão. O amigo, entrava e sentava-se ao balcão. Outro senhor, que chegava quando eu já estava sentado, dizia bom dia muito alto, ao entrar no café. Devia trabalhar numa oficina de mecânica. Ouvi-o, por duas ou três vezes, falar de avarias de carros, de velas, carburador, platinados. O outro, de cabelos brancos e porte atlético, entrava e sentava-se ao lado de uma senhora que ali tomava o pequeno almoço com o filho, que devia ter à volta de seis anos. E brincava com o pequeno que quase não respondia, de tão ensonado que ainda estava. Não sei bem o que fazia, mas parece-me que devia trabalhar numa casa de acessórios de automóveis porque, de vez em quando, aparecia no café com uns embrulhos bem protegidos com papel grosso, tipo acessórios para automóveis. Entrava às nove. Vinha quase sempre a comer um pão ou outra bucha e pedia meia de leite. Um dos que penso que trabalhava na Caixa e tinha um pequeno defeito na mão, à saída, dava boleia ao outro, de quem parecia ser amigo e que também devia trabalhar na Caixa. Fumava muito e, logo de manhã, pigarreava e puxava o catarro, bem do fundo. Notava-se a satisfação com que ficava por conseguir livrar-se daquele incómodo catarral. Tinha cara de boa pessoa. Era este que lia o jornal da cidade em primeiro lugar. Tinha lugar cativo (na leitura do jornal, claro). Também devia ser o cliente mais antigo. A maior parte das vezes, só via os mortos e, logo a seguir, entregava o jornal ao amigo e lia outro jornal, que ele próprio comprava. O segundo a ler era, portanto, o amigo a quem dava boleia, quando saía para o trabalho. Estava sentado ao balcão e era aí que tomava o café e lia o dito cujo. Outras vezes era eu, se o amigo do balcão não tivesse chegado. Se o amigo já estivesse no café, era ele o segundo a ler. Depois da breve leitura, levantava-se e entregava-me o jornal. Digamos que eu era o terceiro da hierarquia. Na minha vez, passava os olhos, lia as gordas, dava uma espreitadela da praxe, quase obrigatória, aos mortos e olhava, de relance, para a previsão do tempo. Lia um ou outro artigo se, pelo título, me interessasse. E entregava o jornal ao senhor de cabelos brancos ou ao senhor da oficina de mecânica. E quase pela ordem de chegada, íamos saindo. Primeiro, o senhor da Caixa que tinha um pequeno defeito na mão e fumava muito, por volta das oito e dez. A seguir, o amigo que estava ao balcão e a quem dava boleia. Depois eu, por volta das oito e um quarto. A seguir, não sei bem, mas talvez o senhor da oficina de mecânica e, por fim, o senhor da loja de acessórios de automóveis que eu sabia que só entrava às nove. Era um ritual muito interessante. Mesmo sem nos conhecermos, daríamos pela falta uns dos outros, sem ser preciso ler o jornal, que era o que nos ligava. E isto durante dias e dias, meses, alguns anos. Conhecíamo-nos, sem nos conhecermos.
Mas um dia, uma senhora idosa chegou antes de nós, agarrou-se ao jornal e não o largava. Ficámos todos a chuchar no dedo. Mas todos caladinhos. Entreolhámo-nos. Mas ninguém disse palavra. Era o silêncio da manhã que o senhor da Caixa que fumava muito, quebrou.
- Hoje não há bola para ninguém - disse ele, em voz bem alta, referindo-se à senhora idosa que lia o nosso jornal.
Olhámos uns para os outros e pensámos: “Isto é connosco!”. Mas ninguém se descoseu. Então, o senhor da Caixa voltou ao ataque:
- Agarrou-se à bola e não a larga, desde que chegou!
- É verdade - respondemos, quase em uníssono, depois de olharmos rapidamente uns para os outros.
Estávamos todos bem sintonizados.
Terminou o tempo de jogo regulamentar para a senhora idosa, que nem sabia que estava em jogo. A senhora levantou-se e deixou o jornal em cima da mesa. E nós, lá fizemos o nosso joguinho. O senhor da Caixa, que fumava muito, levantou-se, pegou no jornal e, ainda de pé, só viu os mortos e entregou o jornal ao amigo. À pressa, que o tempo da manhã voa, demos uma vista de olhos mais rápida do que a habitual. Primeiro, como já referido, o senhor da Caixa que fumava muito e só viu os mortos. Depois o amigo, a quem dava boleia, que também fez uma leitura muito rápida. E, a seguir, foi a minha vez, que só deu mesmo para folhear. E, como de costume, lá fomos saindo. Primeiro, o senhor da Caixa que fumava muito, às oito e dez. E levou com ele o amigo que também devia trabalhar na Caixa. Às oito e um quarto, saí eu e entreguei o jornal ao senhor da oficina de mecânica. E penso que este o deverá ter entregue ao senhor da loja de acessórios de automóveis que só entrava às nove e tinha, por isso, mais tempo para a leitura.
Foi mais um dia na rotina matinal, quebrada pela senhora idosa, que entrou no jogo, sem se aperceber. E saiu do jogo, sem se aperceber também. Contextos! Cumplicidades!

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