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África do Sul - para lá do mundial de futebol

A velha e a muda

Ideias

2010-06-03 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Em Setembro de 2008 escrevi aqui um artigo sobre a África do Sul que começava deste modo: “Em dias de profunda crise dos mercados financeiros, olhar para a África do Sul parece escolha pouco relevante. Mas vale a pena estar atento ao que se passa na que é a maior potência (política, económica e tecnológica) do continente Africano… até ver.”

Quase dois anos volvidos, e às portas do início do campeonato mundial de futebol que em nada parece estar a excitar os portugueses (pano para outras mangas), o que mudou nesse país dos tremendos paradoxos políticos, económicos e sociais como então lhe chamei?

No plano económico, e no que se refere à taxa de desemprego, se já em 2008 rondava os 23%, no primeiro trimestre de 2010 situou-se nos 25,2%, não obstante o comportamento alguns bastante positivo de sec-tores como o agrícola que parecer agora recuperar de dois anos de sucessivas perdas na criação de emprego.

Uma taxa de 25,2% de desemprego corresponde a nada menos que 4,3 milhões de pessoas desempregadas, numa sociedade ainda de delicados equilíbrios, marcada pela tensão interracial, pela xenofobia intra-racial contra comunidades imigrantes (como a moçambicana), e por uma taxa de pre-valência do HIV-Sida na população adulta a rondar os 30%.

Há portanto, desde logo no plano económico, mas que acaba naturalmente por se extensível nas suas consequências ao plano social, duas Áfricas do Sul muito distintas. Uma África do Sul em que urge uma reforma do mercado laboral capaz de integrar grande parte da mão-de-obra excluída, facto que necessariamente terá de passar por uma aposta na educação e formação de quadros, o que por sua vez será inseparável, como bem se compreende, do assegurar da própria sobrevivência geracional.

Com uma taxa de prevalência do HIV-Sida em população adulta que em certas províncias como a de KwaZulu-Natal, chega quase a 50%, há que perguntar: educar e formar quem, no futuro? Tornar o país mais competitivo através da educação e formação de capital intelectual de elevado valor, através da aposta em que gerações?

Esta é também a África do Sul da violência urbana, onde não obstante a Lei de Controlo de Armas em vigor desde 2004, se estima que morram por dia 25 pessoas vítimas de armas de fogo (na maioria jovens entre os 15 e os 21 anos), segundo dados da ONG Aliança pelo Controle de Armas, fruto da existência de pelo menos 4 milhões de armas legais, e quem sabe de quantas mais em situação ilegal.

É também a África do Sul da forte economia informal e da corrupção - que valha a verdade, está longe de dramática no contexto das nações africanas, sendo aliás o 4º país menos corrupto do continente e situando-se em 55º lugar num total de 180 países analisados em 2009 pelo Índice de Percepção de Corrupção. Bem longe portanto do Brasil (75º), da China (79º), índia (89º), Rússia (146º), apenas para indicar os BRICs, ou Angola (162º) no contexto das potencias regionais africanas.

Em paralelo, há uma outra África do Sul: a do forte crescimento económico, apoiado na descida de impostos e de tarifas comerciais que a foram tornando cada vez mais atractiva e competitiva desde meados dos anos 90, quando encontrou o seu novo rumo político e social; a África do Sul capaz de reduzir o défice fiscal, de controlar a inflação e de conseguir com que o seu défice orçamental baixasse de 5,1% do PIB em 1993/94 para 0,5% em 2005/2006, até atingir o primeiro excedente orçamental de 0,3% em 2006/07.

Esta é também a África do Sul dos quase-milagres políticos, onde ao forte simbolismo histórico e político da respeitável liderança de Mandela, se sucedeu o embaraço da lide-rança de Thabo Mbeki, afastado em 2009, e se sucede agora a incómoda liderança do Presidente Zuma. Se há pois um desafio maior que se coloca à África do Sul, é o de conseguir na próxima década, diminuir o fosso que separa estas duas Áfricas e que no fundo dita a sua ainda posição semi-periférica no mundo.

Entretanto, um desafio mais imediato, mas também bem mais modesto se avizinha: a gestão com sucesso da sua imagem internacional no decurso do mundial de futebol. Será aliás, desde logo, uma prova política a nível interno e externo para a liderança de Jacob Zuma e do seu governo, cujas promessas de que tudo decorrerá em segurança e alegria ainda suscitam muitas desconfianças.

A partir de 11 de Junho, as atenções centrar-se-ão no futebol e nas prestações das respectivas selecções nacionais. Mas convém lembrar que tudo isso acontecerá, tendo por pano de fundo um país de fascinantes contrastes que decididamente vale a pena conhecer.

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