Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Afinal foi um sonho verdadeiro

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2016-07-30 às 06h00

Escritor

Zeza Bastos

Afinal acordei de um sonho e o amor com que tinha sonhado nunca aconteceu. Apenas apareceram nos meus pensamentos e em noites acordadas de muito agitadas onde eu bem o via à minha frente e sonhava com aqueles abraços e beijos tão ternos.
Mas não foi bem assim. Uma pequena fotografia dobrada debaixo de um livro de Margarida Rebelo Pinto mostrava uma prova de que afinal o sonho foi algumas vezes verdade. Ali estava ele, de nome João e os nossos encontros acabaram por ter histórias de verdade.

Ah, é verdade mesmo. Agora acordo para a realidade e sinto esses sentimentos profundos de alguns dias de amor eterno. As juras que foram feitas mas que não valeram de nada. Os pedidos que cairam em saco roto. Aqueles passeios pela praia por cima dos seixos em São Bartolomeu do Mar onde ainda existiam todas aquelas casas a debruçarem-se sobre o mar.

O amor do João foi como as casas de São Bartolomeu. Desapareceu. Deixou de existir. Hoje já nada existe e mesmo na praia e na costa de São Bartolomeu apenas um vazio enorme sem casas à vista. Foi assim o amor. Foi forte enquanto existiu e enquanto as casas ali estavam. Mas tudo acabou um dia. O amor do João e as casas de São Bartolomeu. Hoje existe ali uma cruz. Uma pequena cruz em pedra a lembrar que por ali passaram muitas pessoas felizes.

Nas férias, na praia, no amor. Ali fui feliz com o João nos grandes passeios que chegamos a dar por cima dos seixos. Afinal tudo foi real. O amor e a praia. Foi naquela praia quando o mundo bulia com a chegada dos primeiros calores e das primeiras nortadas. Ali corriam as crianças e os mais velhos davam vida ao pequeno café que mergulhava quase em cima da praia. As cartas com os baralhos já velhos e cansados ainda faziam sorrisos alegres aos velhinhos que preferiam uma boa sueca e um copo de três do que molhar os pés nas águas gélidas do mar.

Foi ali que tive o primeiro encontro com o João. Ali mesmo ao lado daquele café alegre e cheio de vida. Foi a partir dali que fiz a primeira caminhada. Foi na praia que dei o primeiro beijo e fizemos juras de amor. Mas também foram ali as primeiras lágrimas quando recebi as primeiras desilusões. O amor começava a desaparecer e as primeiras casas começaram a ser abandonadas.
Um dia quando já nada restava já me encontrava só em São Bartolomeu. Entrei naquele café que dantes estava cheio de sorrisos e onde se contavam anedotas e já só via tudo escuro, tudo abandonado. O amor tinha chegado ao fim e aquelas casas já nem tinham janelas nem portas.

As loiças das casas de banho e das cozinhas foram furtadas e outras violadas por gentes que só queria fazer estragos e vandalizar... E a vida é assim. Tudo chega e tudo vai. O amor também.
Afinal tudo não passou de um sonho verdadeiro. Sim porque tudo se passou mas tornou-se num sonho com que sonho hoje todas as noites. É disto que recordo. Os momentos bons, cheios de amor e cheios de vida em São Bartolomeu do Mar.

Bem sei que nunca poderia ficar tudo igual porque há sempre demónios que não podemos controlar. Afinal ele tinha outra e essa outra era o demónio. E as casas em São Bartolomeu também tinham o seu demónio que era o Mar.
Há histórias boas mas esta teve um final triste. É por isso que continuo a sonhar com as coisas boas que me deram aquela terra. Sim, ali eu cheguei a ser feliz.

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