Correio do Minho

Braga,

Adeus Palmira

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Ideias

2015-06-28 às 06h00

José Manuel Cruz

Assistimos com horror redobrado aos crimes perpetrados contra a cultura universal em nome da superioridade do islão, ascendente que tudo permite e tudo iliba. Nós, civilização fraca, sem sangue na guelra, resistimos a condenar uma religião por inteiro, todos os crentes duma fé.

Resistimos em classificar o que se passa como uma guerra de mundividências, como o prelúdio duma convulsão generalizada na bacia mediterrânica, e onde próximos possam encontrar-se ilustres muçulmanos e desprezíveis infiéis, pois assim a nós se referem, dando-nos como seguidores de tradições arcaicas, como adoradores blasfemos das artes representativas - escultura, pintura, cinema... Vergamo-nos a ídolos abjectos, e nenhuma misericórdia nos pode ser acordada, nós que mais não somos que espíritos primitivos.

Sabemos que nos votam ódios de morte, e ainda assim contornamos extensiva condenação. Propagamos, imbuídos de fleuma diplomática, que a abjecção de indivíduos animados de indescritível bestialidade não se estende a próximos ou familiares, e menos ainda a aliados. Refugiamo-nos em meias verdades, trazendo à superfície o facto incontornável de se confrontarem muçulmanos entre si, de se arrasarem mesquitas, de um de de outro lado, na linha de clivagem entre sunitas e xiitas.

Choramos pedras milenares, umas de rude esquadria, outras de fina expressão, e quão deslocado isso não soa, quando, logo ali ao lado, se degola, se decapita, se esquarteja, se queimam ou se afogam pessoas enjauladas, se bombardeiam e se fazem explodir sensatos adversários, se enforcam jovens por um copo de água contrário às prescrições insanas de feroz jejum.

Adeus Palmira! Adeus Nimrod! Adeus, já lá ao longe, Budas de Bamyan. E, a talhe de foice, um longínquo adeus à egípcia esfinge do Vale dos Reis, pois, contra a bem-humorada vulgata de Uderzo e Goscinny, não foram os trôpegos desajeitos de Obélix que a desfiguraram, mas as ferramentas dirigidas por um pio sufi otomano de alma sangrante pela devoção que os autóctones prestavam à mais grandiosa escultura da Antiguidade.

Não é de hoje que em louvor de uma divindade informe se aviltam os valores do passado, se esfrangalham os sinais de excelência e de génio das gerações precedentes. A feroz pulsão destruidora está lá desde o início, é identitária, é legítima à luz de particular código moral. Terá havido, historicamente, uma sanha assassina e iconoclasta análoga entre os nossos antepassados cristãos? Ainda que nos embarace a memória dos ancestrais, já não é nesse pé que estamos no presente: professamos um ecumenismo aberto, um descomplexado diálogo inter-religioso, não nos embaraçam os matrimónios mistos, não nos choca o sincretismo religioso.

Ninguém convocaria uma cruzada, ninguém pretende que os campos se extremem e que o conflito se enraíze. Menos julgo, ainda, que compita às potências ocidentais uma intervenção militar no médio oriente. Só não atinjo, porém, a condescendência ou omissão de sauditas e monarquias aliadas locais. Sabemos como os mujahedines apareceram no Afeganistão, como os talibãs de seguida tomaram o testemunho na estafeta, como o Estado Islâmico eclodiu e assumiu o curso das operações no presente. Sabemos que foram desejados como peões de guerra contra soviéticos, contra o regime iraniano, contra Kadhafi, contra o autocrata sírio.

À margem da responsabilidade americana na catástrofe que se arrasta e avoluma desde há décadas, enfim, não sendo o islão sunita em toda a sua extensão responsável pelas atrocidades inenarráveis duma milícia armada de múltiplo rosto, é a eles mais do que a nós que compete por cobro ao que se passa. Nisso devem fazer os dirigentes ocidentais finca-pé, sobre isso se deve debruçar prioritariamente a opinião pública. Mas não, continuamos muito entretidos com a Ucrânia e as sanções à Rússia, com a escalada armamentista no leste europeu, com as denúncias caricaturais de Putin, como se, entre os aliados preferenciais dos americanos no médio oriente e península arábica, se respirasse mais democracia. E é isso que me choca: a estupidez monotemática.

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