Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Actuação no território e a forma como o construímos e alteramos... (parte IV)

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias

2017-01-02 às 06h00

Filipe Fontes

“Que seja assim o arquitecto - Homem entre os homens - organizador do espaço, criador de felicidade” (Fernando Távora)

História de amor e ódio, de drama e comédia, de confronto e complementaridade, de excesso de protagonismo e reduzida solidariedade, a relação entre os dois meios mais expressivos de exercício da “profissão de arquitecto”, personalizada nos seus actores - o arquitecto funcionário público e o arquitecto profissional liberal, sempre polémica e recíproca, apoia-se nos opostos: ao autor de um projecto de arquitectura no seu exercício liberal, que imagina e concebe um objecto arquitectónico nos limites da sua criatividade, contrapõe-se o tecnocrata (funcionário público) que zela pelo cumprimento integral e rigoroso da legislação; ao ingénuo (profissional liberal) que se sujeita às regras éticas e deontológicas do mercado de trabalho e da profissão, contrapõe-se o manipulador (funcionário público) que se orienta por critérios egoístas, discricionários e de auto-satisfação; ao projecto de arquitectura, resultado de uma encomenda privada, contrapõe-se o plano, enquanto exercício público de regulação do território; à intervenção no espaço privado que o profissional liberal realiza contrapõe-se o desenho do espaço público que o funcionário público executa e gere.

Embora de substancial diferença, o inverso também é verdadeiro: ao arquitecto funcionário público que estuda e analisa possíveis soluções para determinado problema contrapõe-se o arquitecto profissional liberal que, refugiado no seu ego, não admite qualquer interferência ou sugestão no seu trabalho; ao arquitecto funcionário público sedutor e audaz, que inventa formas e (re)interpreta a lei para melhor servir, contrapõe-se o arquitecto profissional liberal que apenas se limita a responder positivamente às exigências regulamentares, demitindo-se do seu papel criativo, social e cultural; ao arquitecto funcionário público que luta para superar entidades, pressões e objecções contrapõe-se o arquitecto profissional liberal que se deixa vencer, sem qualquer esforço, por todas as exigências e sugestões dos clientes.

Ao plano, que muitas vezes é encomendado ao profissional liberal, contrapõe-se o projecto que, outras vezes, melhora substancialmente com a intervenção do arquitecto funcionário público. E assim outras tantas situações…

Sempre polémica e controversa, a relação entre estes dois meios de exercício profissional da arquitectura, sendo ambos incontornáveis e necessários, evidencia-se muito mais pelos seus actores do que pelo seu conteúdo, colocando em destaque, ora por dedução, ora por confronto, o fundamental: o comportamento do arquitecto na sua prática profissional.

Comportamento esse que deverá ser conjugado com outras duas palavras: equilíbrio (igualdade de forças de dois corpos que contrabalançam mutuamente os seus efeitos à procura da estabilidade e harmonia) e (não) demissão (enquanto omissão, cessação e silêncio).
Se é verdade que “nenhum projecto é executado se não for autorizado” (Helena Roseta), não menos verdade é que “todo o projecto tem uma autoria”. Se é verdade que um (liberal) não tem toda a liberdade, não menos verdade é que o outro (funcionário público) não tem todo o poder. E será no equilíbrio da assunção de cada papel, da compreensão do âmbito e limites de cada acção e do esforço por “fazer bem e sempre melhor” que se poderá alcançar plataforma estável e, positivamente, evolutiva.

Depois, simplesmente, reporta a todos assumir as respectivas responsabilidades e partilhar os justos resultados. No silêncio individual, na visibilidade comunitária. Na certeza de que a cidade é uma construção colectiva. Que depende incontornavelmente (também) da arquitectura enquanto esforço colectivo.
Se cada um fizer a sua parte, todos ficarão melhor…

(na convicção de que “amanhã é sempre uma oportunidade”… bom ano 2017)

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