Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Abril, Abril, Abril!...

O que nos distingue

Ideias

2015-04-19 às 06h00

Artur Coimbra

Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.
Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.
Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.
Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.
Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.
Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.
Manuel Alegre

Abril está de novo aí para se celebrar, 41 anos depois. Faz sentido recordarmos, hoje, para que foi feito? Qual a razão que levou centenas de capitães e outros militares a passarem noites em claro para restaurar uma liberdade, longamente represada, longamente ansiada? Faz, ao menos, sentido comemorar? Obviamente que sim!
Todos sabemos que o movimento dos capitães corporizou os sonhos e os anseios dos portugueses mais conscientes, politicamente, dos milhares que lutaram sem tréguas para verem um país redimido, soberano, dono dos seus destinos, respeitado internacionalmente e no qual os próprios cidadãos se sentissem como em casa. Senhores de todos os seus direitos e deveres.
Depois de meio século de ditadura, de milhares de presos políticos e de centenas de mortos e expatriados, depois de um país extorquido aos portugueses, da hecatombe da Guerra Colonial e da emigração para a Europa, que destroçou, desmoralizou, despovoou o reino, para fugir à guerra e à miséria, depois de imensas vicissitudes, de esperanças e desaires, de vitórias e derrotas da imensa expectativa, eis que em 25 de Abril de 1974, se desenhava, em todo o seu esplendor, a madrugada que todos esperavam,

O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo (Sophia de Mello Breyner Andresen).

Há tanto tempo foi, que parece já uma eternidade. Crianças que nasceram depois, já hoje são pais. E a liberdade reconquistada quase se respira, é hoje inquestionável.
Os capitães de Abril prometeram descolonizar, democratizar, desenvolver. Os célebres três “D” da nossa colectiva remissão. E, na generalidade, cumpriram….
Descolonizaram, na medida e nas condições possíveis, porque no terreno as coisas não estavam nada fáceis, nos anos 70, depois de séculos de excessos e opressão.
Democratizaram, sem dúvida, devolvendo a soberania aos cidadãos, que passaram a exercê-la através dos actos eleitorais a partir de 1975, recuperando a dignidade perdida e vilipendiada tantas décadas antes.
O desenvolvimento é um processo em constante evolução e concretização. Nunca estará fechado, e nunca estaremos satisfeitos com o seu desfecho. Com avanços e recuos, o caminho vai-se fazendo.
Em Abril floriram sonhos e utopias, muitos dos quais ficaram pelo caminho.
Mas, para lá de todos os erros, de todas as frustrações, de todas as queixas, de todas as amarguras, não há a mínima comparação entre o Portugal de hoje e o de antes de 1974, por muito que nos custe.
Por razões que têm a ver com a instauração da Democracia e o reforço do Poder Local, sobretudo, por esse país além, decorrentes directamente do 25 de Abril, o rosto do território e das colectividades sofreu profundas alterações, para melhor, na esmagadora maioria dos casos.
O país ganhou acessibilidades, estradas pavimentadas a rasgar os mais recônditos lugares, auto-estradas, variantes rodoviárias.
O país reforçou a rede eléctrica, a distribuição domiciliária de água, as redes de saneamento, a instalação do gás natural.
Pelo país, não havia mercados modernos, nem centrais de camionagem. Não havia pavilhões desportivos, nem piscinas, nem museus, nem infra-estruturas culturais condignas.
Os municípios não dispunham de recintos desportivos de qualidade (campos de futebol, polidesportivos, etc.), nem de circuitos de manutenção ou pistas de atletismo. As praias fluviais eram ainda uma miragem.
Antes de Abril, não havia a generalização do ensino, do pré-escolar ao superior, como acontece nos nossos dias. E quanto a escolas, as instalações eram deficitárias e deficientes. Escasso era o ensino pré-escolar, e pouco frequentado o superior.
Não havia a quantidade de associações do mais diverso género que hoje valorizam a cidadania. Nem as cidades dispunham da caterva de serviços (restauração, cafetarias, bancos, seguros e outros) que hoje são absolutamente normais.
A melhoria das condições de vida expressa-se certamente na aquisição de casa própria por parte de grande número de portugueses, como nunca antes acontecera, bem como do seu apetrechamento com todas as comodidades. São escassas as habitações que não dispõem hoje de água, electricidade e saneamento. Multiplicam-se os electrodomésticos que dão conforto e bem-estar às famílias. E não faltam automóveis, televisores, computadores, telemóveis de última geração, aparelhagens para tudo e mais alguma coisa.
Também de registar o notório incremento das actividades e eventos de âmbito cultural, desportivo e social, bem como a construção, apetrechamento e valorização de instalações e equipamentos dessas áreas, por esse país além. Porque aconteceu Abril, este país é absolutamente incomparável ao que tínhamos há 41 anos.
Atingimos o suprassumo da felicidade? Obviamente que não. Superadas algumas necessidades, outras surgem, no sentido de garantir o bem-estar e a qualidade de vida dos cidadãos.
Mas que Abril valeu a pena, em todos os sentidos, não tenho a menor dúvida!...
Por isso, Abril, Abril, Abril!...

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