Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Abrigo no Tua

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2010-03-21 às 06h00

Carlos Pires

1. Há acontecimentos que ficam a magoar-nos para sempre. O país ficou em “estado de choque” (nada que uma qualquer telenovela ou um jogo de futebol não tivesse já anestesiado), com a notícia do acto extremo de uma criança, estudante em Mirandela, que se lançou às águas geladas do rio Tua, após se ter previamente despido. Nem o frio agreste foi mais forte e dissuasor do que o “gelo” que sentiria na sua alma, cansado que estava das agressões físicas e psicológicas infligidas por alguns colegas das mesma escola.

Leandro Pires, de 12 anos, vivia numa aldeia escondida nas montanhas, onde o pai é agricultor. Diariamente, e desde Setembro de 2008, percorria 15 quilómetros, de autocarro, até Mirandela, onde estudava, na EB 2,3 Luciano Cordeiro. Foi alvo de constantes agressões por colegas, desde o início. Em Dezembro desse ano de 2008, esteve internado no hospital, durante três dias, por ter sido brutalmente espancado na paragem do autocarro. Este ano lectivo, voltou a queixar-se. A mãe denunciou as agressões de que o filho era alvo ao Conselho Directivo. A instituição nada fez e apenas disse que “eram coisas de crianças”. As agressões continuaram e o menino não aguentou mais: atirou-se ao rio Tua, onde o seu corpo continua por encontrar.

Caro leitor, poderia ter sido um filho seu! Impossível? Não! No limite, o leitor poderá concluir que dificilmente viveria um caso como este, porque é um pai atento a todos os sinais de alarme, porque tem as competências suficientes para adquirir informação. Mas não foi, pelo que resulta das notícias, o que se passou com a família do Leandro. Por isso, teriam que ser as instituições que o acolhiam a agir. 

Há manifestações continuadas de desespero da parte do Leandro. Os colegas, os auxiliares de acção educativa da escola, os professores, o Conselho Directivo, todos, obviamente, conheciam a situação. O internamento hospitalar, há cerca de um ano, em resultado de agressão, foi do conhecimento da escola e da associação de pais da mesma. O hospital não contactou, como era seu dever, a Comissão de Protecção de crianças e Jovens local. A associação de pais alheou-se do problema do menino das montanhas, certamente mais preocupada em pedir ajuda técnica para defender os filhos dos que a compunham.
Ninguém ajudou o Leandro, que só encontrou como remédio para o seu sofrimento matar-se, face à angustiante indiferença de todos. O abrigo foi o Tua.

2. Os valores e a educação que (não) estamos a transmitir às crianças e aos jovens potenciam situações como estas!
“Os jovens de hoje são mais agressivos do que os das gerações anteriores'. A afirmação é do psicólogo e pedagogo italiano, Alessandro Costantini, que estudou as causas do crescimento dos casos de crianças que são vítimas da perseguição, coacção e violência de outras (“bullying'), cada vez mais comuns e mais graves, criando um ambiente escolar marcado pelo medo e pela ansiedade, que faz aumentar o insucesso, o absentismo e o abandono escolar.
Mas, porque razão a geração actual é mais agressiva do que as anteriores? A sociedade de hoje é muito mais complexa; existem fenómenos como a globalização e o consumismo. A família estrutura-se de forma diferente: os pais têm pouco tempo para os filhos. Não tendo um adulto do seu lado, que interaja, entenda ou interprete, a criança recebe as informações da televisão. As famílias disfuncionais, destituídas de afecto, onde existe violência e a disciplina é inconsistente, propiciam o aparecimento destas atitudes Há ainda outros factores que podem ser determinantes para o desencadear destes comportamentos, como gozar de elevado prestígio social e sentir-se impune, ou o prestígio social ser negativo e querer conquistar afirmação..
A maioria das vítimas, por seu lado, não sabe que é vítima de “bullying”. Sabe apenas que é discriminada e constrangida. A mudança repentina na assiduidade e no desempenho escolar, perda de apetite, sintomas físicos como dores de cabeça e de barriga, pesadelos, quebra de auto-estima e súbitas mudanças de humor são, segundo os especialistas, alguns dos principais sinais evidenciados pelas vítimas, a que pais e professores devem estar alerta.
Precisamos de uma escola mais atenta, bem como da criação de estruturas capazes de apresentar respostas às vítimas. A primeira coisa operacional a ser feita é uma pesquisa, através de questionários anónimos para os estudantes responderem. Assim, é possível medir se naquela escola o fenómeno de “bullying” acontece, para depois intervir.
A escola reproduz as relações de um sistema social. O “bullying” está dentro da nossa sociedade, na própria família. As consequências de práticas de “bullying” podem ser nefastas. Uns porque são agredidos e ficam traumatizados, talvez para toda a vida. Outros porque serão, toda a vida, rotulados como agressores e violentos. E há, ainda, a história do Leandro, que nos deixa com um “nó na garganta”, porque é um símbolo de muitas outras.

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