Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Abraçada pelo sol

Não há desculpas

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Conta o Leitor

2022-07-31 às 06h00

Escritor Escritor

Texto Suelita Nogueira Almeida

Amanheceu, o sol dava um show de brilho e calor. Um convite para sair e absorver toda aquela luz. Deixar os raios solares penetrarem na pele e produzir energia. Eu precisava ser abraçada pelo sol. Comecei a caminhar, pela pedonal, à beira do Rio Este. Contemplava as belezas da natureza e alimentava minha alma. Percebi que o sol não só iluminava o dia, como também aquecia os corações. À minha frente, seguia um jovem casal. Eles se abraçavam, se empurravam e riam daquelas brincadeiras. Porém, o garoto estava incomodado, pois sua amiga usava um vestido curto e totalmente justo ao corpo e a cada passo que ela dava, o vestido subia e quase deixava à mostra sua roupa interior. O rapaz puxava o vestido dela para baixo, evitando assim que a miúda ficasse descomposta. Seria um gesto zeloso e carinhoso, se não fosse pelo facto de que cada vez que ajeitava o vestido, ele aproveitava para passar a mão na mocinha, que apenas ria daquela atitude. Em determinado momento, enquanto arrumava o vestido, ele apertava a nádega dela. Nesse instante, um senhor que passava por eles, repreendeu o rapaz dizendo: “tenhas mais respeito”. O garoto respondeu usando um linguajar grosseiro e ofensivo. A miúda, muito branca e ruborizada, pedia calma ao seu amado. O senhor ficou furioso, mas seguiu em frente. O casal virou para a direita, com os mesmos gracejos como se só existissem os dois no universo.
Continuei meu trajeto e mais adiante avistei dois jovens recostados em um banco de madeira, com os olhos vidrados no ecrã dos seus telemóveis. Estavam comportados e silenciosos, porém, percebi que enquanto digitava em seu telemóvel, ele roçava o pé na perna da miúda, que permanecia quieta, a desfrutar daquele movimento. Para além, avistei dois adolescentes deitados, de lado, sobre a relva, imóveis, como se fossem duas estátuas a tomar sol. Ao passar por eles percebi que se olhavam com ternura, enquanto o rapaz deslizava o polegar sobre os lábios dela. Depois vi duas pessoas sentadas no relvado, bem próximas ao rio. Ela estava aconchegadinha no colo dele, tão juntos que pareciam ser somente um. O garoto acariciava os cabelos dela e vez por outra olhava para os lados, penso que temia ser repreendido. Fui até ao final do percurso e retornei.
Enquanto andava, admirava o fundo do rio através de suas águas cristalinas e calmas, que corriam por uma leve correnteza. Ainda me era permitido ver, refletidos na água, as árvores e o azul do céu. Um espetáculo da natureza. Acho que não era a única a aproveitar a beleza daquele lugar, uma vez que dois patitos nadavam tranquilos. Apresentavam na plumagem da cabeça e pescoço, uma coloração verde brilhante, maravilhosa, que com a incidência do sol ficava ainda mais cintilante. Eles mergulhavam a cabeça na água e retornavam à superfície juntos, numa linda e perfeita sincronia de movimentos, que mais parecia uma coreografia. Continuei meu trajeto e do outro lado do rio, estavam duas garotas sentadas em um banco, uma de frente para outra. Elas davam as mãos, entrelaçavam os dedos, se empurravam e riam. Uma brincadeira muito divertida e pueril. Estavam felizes. Mais à frente, um casal de idosos caminhava, lentamente, de mãos dadas e em silêncio. Com a certeza de que tinham mais passos dados que passos a dar e, portanto, aproveitavam cada passada, cuidadosamente, com o objetivo único de chegar bem.
Adiante avistei outro casal, mais jovem que os anteriores. Estavam sentados à mesa de piquenique a partilhar o lanche. Eles mordiam, ao mesmo tempo, uma bifana, bebiam da mesma garrafa de sumo e ao final ele passava, com delicadeza, o guardanapo na boca da garota e em seguida se limpava. Finda aquela cena romântica e nada higiênica dos desavisados, o rapaz recolheu todo o lixo e deitou fora.
O último casal divertia-se imenso. O garoto estava sentado em um banco de concreto e a jovem esbelta e muito linda, estava de pé entre as pernas dele. Ela vestia um look preto total, top curto e uma calça de cintura descaída. Ele friccionava o nariz no abdómem dela, enquanto balançava-lhe as ancas e soprava-lhe o umbigo, fazendo um barulho estranho. Aquela cena era cómica. Ela ria e se afastava, ele a puxava de volta e repetia a brincadeira. Aquela atitude não a incomodava, pelo contrário, penso que estava a gostar daquelas cócegas. O casal não via as “ridiculices” que praticava. Como disse Shakespeare: “O amor é cego”.
Terminei minha caminhada, muito bem-disposta. Estava energizada. Acredito que este foi um dia para se guardar na memória. Um cenário maravilhoso, à beira do Rio Este. O barulho das águas seguindo seu curso. Ouvir o cantar dos pássaros. Observar uma brisa leve balançar as folhas das árvores, que bailavam ao som daquela sinfonia de cantos. O sol a iluminar aquele cenário. Era como se eu estivesse em um grande ecrã, com o privilégio de interagir com qualquer um dos personagens. Porém, decidi apenas assistir sem interferir na performance de cada um, que simplesmente interpretava seu papel.

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