Correio do Minho

Braga, terça-feira

A voragem do Natal

Obrigado, Pedro Passos Coelho

Ideias

2017-12-17 às 06h00

Artur Coimbra

1. Sem quase disso nos apercebermos, assoberbados que estamos na vertigem do dia a dia e na espuma de uma vida em permanente estresse, eis-nos novamente na quadra natalícia, no meio do bulício das cidades derramadas em luzes e cores e no exercício masoquista do consumismo que nos consome por restes dias.
Dezembro é um tempo de inquietação desmesurada, de preocupação desmedida, de calcorreio de ruas, lojas e mercados, em busca frenética de presentes para oferecer ao pai, à mãe, ao marido, à mulher, aos filhos, aos tios, aos amigos, aos vizinhos, aos cães e aos gatos.
Na longa lista das prendas, afadigamo-nos em procurar roupas, malas, brinquedos, livros, CD, perfumes, jogos, smartphones, tablets, bilhetes para espectáculos, de tudo um pouco para aquietarmos a nossa boa consciência da distância e da indiferença com que durante o resto do ano tantas vezes tratamos quem nos é familiar ou próximo.
Atropelamo-nos nos espaços comerciais, as novas catedrais do consumo, orando pelo achamento da melhor lembrança para oferecer a quem mais amamos, ou a quem gostamos.
Natal é, na verdade, um poético tempo de ser bom, afivelar máscaras de solidariedade, simpatia e fraternidade, estender o coração em direcção ao próximo, ao menos uma vez no ano, como os cristãos fazem na Páscoa com a confissão.
O Natal volta em cada ano que passa, não para o hino ao mercantilismo mais vil e para a evidência da feira de vaidades em que se transforma o último mês do ano, mas para nos recordar e vincar que há em nós uma alma e um coração que importa fazer prevalecer. O espírito de Natal deveria ser exactamente esse, o da atenção a quem nos é mais próximo, o do auxílio mútuo, da filantropia, da ajuda e do apoio a quem mais necessita.
Obviamente, estamos no domínio das boas intenções, porque o Natal é um pouco uma prática da hipocrisia e do farisaísmo, no sentido em que não passa de um pequenino hiato, um curto intervalo entre uma normalidade arrogante e uma rotina em que a arrogância e o egoísmo se sobrepõem aos sentimentos, aos afectos e às emoções.
Por isso, se proclama poeticamente que o Natal deveria ser todos os dias, em Maio ou em Setembro, em Fevereiro ou em Agosto, e não apenas nos estipulados e estatuídos dias de finais de Dezembro, na celebração ligada ao solstício de Inverno. Também a música se derrama por estes dias, em que as escolas e instituições se desdobram em festas e os cidadãos em jantares, de empresa, de família ou de amigos. As canções natalinas são símbolos do Natal e as letras retratam as tradições das comemorações, o nascimento de Jesus, a paz, a fraternidade, o amor, os valores cristãos ou simplesmente humanos. 

2. Por estes dias que deveriam ser de acalmia, fervilham pelo país sinais vermelhos de situações nada condizentes com a paz da época.
Dois meros exemplos.
Uma farsa a caminho da tragédia é o que se está a passar com a associação Raríssimas, uma infra-estrutura assistencial às crianças com doenças mentais ou raras, à frente da qual estava uma senhora chamada Paula Brito e Costa, conhecida pelos seus gastos sumptuários e que vem, designadamente, referir que os vestidos caros que comprou com o cartão da associação eram fardas para receber a rainha Letícia, as gambas eram para servir a diplomatas e mecenas, o luxuoso BMW para uso de toda a direcção e o curioso PPR uma compensação por prémios de produtividade mensais nunca recebidos.
Este caso, denunciado pela TVI, começou por ser um caso de polícia mas cedo se transformou num campo de batalha política, com a demissão do Secretário de Estado da Saúde e o cerco ao ministro Vieira da Silva.
Entretanto, a senhora demitiu-se da associação mas continua como directora da Casa dos Marcos e só de lá sai com “o pagamento da respectiva indemnização e o subsídio de desemprego”.
E o seu desplante chega ao ponto de proclamar que “merecia um pedido de desculpas do país”. Ora até nem estava mal, não senhora!...
Estamos, porventura, perante um caso isolado de má utilização, abuso ou apropriação de dinheiros de uma associação, na maioria públicos, logo, de todos os portugueses, por uma dirigente sem escrúpulos, nem um pingo de vergonha.
Obviamente, a ocorrência não poderá estendida à generalidade das instituições particulares de solidariedade social, ou do 3º Estado, servidas por gente dedicada, dinâmica e ao serviço dos outros, não de si própria ou da família, como se as instituições fossem monarquias hereditárias.
As IPSS são organizações que prestam relevantes serviços à sociedade e que recebem e movimentam muitos milhões de euros, do Estado e de donativos particulares. Por isso, deverão ser passíveis de uma fiscalização séria relativamente ao uso de dinheiros públicos.
Lamenta-se que o Presidente da República, por motivos meramente ideológicos, em favor de um assistencialismo que desmantele o Estado, venha manifestando reservas ao reforço do controle da utilização dos dinheiros dos contribuintes nesse tipo de instituições. Lá saberá porquê!...
Outro caso “bicudo” é o da Autoeuropa, em Palmela, e que, ao contrário do que alguns querem fazer crer, é muito mais que um normal conflito laboral.
Obviamente, é um campo de batalha de forças políticas à esquerda do Partido Socialista, para ver quem controla e arrebanha os milhares de trabalhadores que a empresa tem.
Da fábrica saem diariamente um milhar de automóveis e o risco do seu abandono de Portugal não é um facto despiciendo, o que seria dramático para a economia nacional.
Oxalá, impere o bom senso entre as partes, porque qualquer trabalhador gostaria de decidir o seu horário de trabalho, se possível trabalhar menos e ganhar mais, preferivelmente sem sair de casa.
Compreende-se que quem investe também tenha regras para impor e na negociação é que está a solução do impasse.

3. Um facto bem mais positivo e auspicioso, para lá da eleição de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo, o que só pode honrar o país, é a recente notação da Fitch, que na sexta-feira subiu a nota (rating) da dívida soberana de Portugal em dois níveis, “de BB+ para BBB com perspectiva estável”, naquela que é a maior subida de que há registo.
Uma excelente prenda de Natal para a economia portuguesa!

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