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A voltinha dos tristes

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A voltinha dos tristes

Ideias

2019-03-03 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

A violência de género espalha raízes, multiplicam-se queixas e detenções. Entrementes, por vaivém, uns despachos de desembargador passam secantes ao absurdo. Duas que não há sem três: património de órfão de triatleta executado a tiro é disputado em pequeno ecrã por família de amoricida, Rosa imaculada, carnívora flor, carrasca mão ou, nos menores, instigadora e cúmplice activa. Pudores que não guardam, raia o vómito sogra cegueira, mas retrata a época.
Costas que aliviávamos de greves de enfermagem enfermiça, ferida de ilicitudes por douto dizer. Suspiro de alívio volvido soluço engasgado e sufoco: a Galiza pagará médicos pelo dobro, assim queiram bandear ribaminho. E a Irlanda que o dobro duplica! Tosse, Costa. Não ir a Tui, para nascer por distracção peregrina? Adquirir, talvez, um passe intermodal – flexibus-ryanair?
Histórias que contamos, e nas quais somos nunca o vilão, antes o herói, antes a vítima de abusos e desmandos. Ai, IPO, que açoite mereces! Escândalo por um dia. É regulamento contra humana norma, proferem reguladores entalados com défice da acção, esse de familiares correr porta-fora no finar das horas de visita. Será a regra de aplicação discricionária? Quantos familiares terão vivido a mesma amargura em silêncio? Não lançarmos nós um #metoo contra o IPO!
Ei-la que sobe a pelourinho: terminará a exposição em cerimónia de cadafalso? Faltava-nos uma IPSS em que tudo corresse mal, com lucros proibidos, fruto de dotações generosas e do quanto se comprime nos custos de exploração, menos em facturas de balcão de bom-gosto. Xô, más línguas, não há-de morgado, capitão de jardins-escolas indumentar-se com fardeta Prada de função? Isto digo, supondo, que outra forma não vejo de constar tal etiqueta na contabilidade da João de Deus. Ou seria por écharpes de fina seda, simbólico agradecer por anos de entrega abnegada à alfabetização das massas oprimidas?
Temos que pedalar com força redobrada, desabafa Costa, na antevisão de um arrefecimento da economia. Já parecemos hámsteres na rodinha, damos ao zarelho por vício servil, por uns trocados que nos eximam à vergonha da pedinchice de rua e de porta de igreja. Por que milagre pode a Galiza pagar o dobro e a Irlanda o quádruplo? Não somos primos de crise e irmãos de moeda única? Ai, São Jorge, que tanto perdes para Santiago!
Portugal é uma gaiola. Portugal é uma ave canora de penas aparadas, insusceptível de voar, de vencer desfiladeiros, de encarar uma mutação. Não nos fará falta uma comissão independente que nos esclareça das razões íntimas da nossa debilidade? Quanto tempo mais conseguiremos fingir que estamos no bom caminho?
Um escândalo não nasce da noite para o dia, a miséria de um povo não se resolve no tempo de um baile de Carnaval. Teme o populismo, o homem de estado que se reconhece incapaz de o afrontar com medidas que esbatam a sua atractibilidade no seio dos sem-tudo. Curioso é que, no final, fiquem os mesmos a ganhar.
Com efeito, logo que a política se põe prioritariamente ao serviço do capital, uma diminuição da distribuição da riqueza é o que acaba por se dar, uma deterioração dos serviços à população, um abrandar dos mecanismos de controlo das instituições. Vão-se os pequenos rebuçados de qualidade de vida, ensombram-se os horizontes, e o povo clama por ordem e disciplina, que prontamente lhe será servida, ou não tivesse quem puxa cordéis preparado já a mudança de dinastia.
Em suma, a violência, as greves impiedosas, o desvario das instituições, os pantanais bancários, não são problemas, são sinais. A doença é outra.

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