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Braga, terça-feira

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A violência no centro de Braga

Plano, Director e Municipal …

Ideias

2017-04-02 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A palavra violência deriva do étimo latino “violentia”, mas a sua origem está relacionada com “violare” que significa “violação”. Deste modo a violência abarca as diversas ações de violação dos direitos: civis, culturais, económicos, políticos e sociais. Uma vez que a nossa região assistiu, nos últimos dias, a um episódio de extrema violência, importa recordar como era Braga há pouco mais de cem anos.
Até finais do século XIX, a elite de Braga que vivia confortavelmente nos seus palacetes raramente sentia necessidade de sair à rua. Assim, o centro da cidade era frequentado maioritariamente por pessoas de cariz social e económico médio ou baixo. Em redor do edifício da Arcada, ocorriam frequentes discussões e conflitos entre os seus frequentadores e muitos deles acabavam de forma fatal.
Em finais do século XIX o movimento dos carros de tração animal marcava a paisagem na cidade. Para aqui convergiam pessoas oriundas dos lugares mais distantes de Melgaço ou Monção, de Ponte de Lima ou Arcos de Valdevez, de Vila Verde ou Póvoa de Lanhoso. Aqui chegados, depois de extenuantes viagens, afogavam o seu cansaço nas várias tabernas existentes. Para além disso, existiam muitas mulheres que ganhavam algum dinheiro a ajudar no transporte de mercadorias que aqui chegavam, destinadas às lojas e ainda à feira semanal. Foi neste contexto que ocorreram, no Largo Barão de S. Martinho, no dia 15 de novembro de 1899, cenas violentas de pancadaria, que envolveram várias mulheres que tentavam ganhar algum dinheiro no transporte de bagagens, e João Pires Pinheiro, um “moço de fretes”, mais conhecido por o “Faributo”. Foi no meio desta enorme confusão, provocada por disputas entre esta gente, que um cocheiro tentou intervir para tentar acalmar os ânimos. Aí, o cocheiro João, mais conhecido por o “Arrebenta Cabrestos”, armado com um cacete, tentou acalmar os ânimos entre as mulheres aí presentes e o moço de fretes, agredindo desalmadamente todos os que apareciam pela frente. Chamadas as autoridades policiais ao local, o alvo dos agentes foi o próprio “Arrebenta Cabrestos”, que foi capturado quando se encontrava escondido numa casa de banho situada na rua de S. Marcos!
Quinze dias após este episódio, ocorreu um outro, agora em frente à Arcada. Tudo aconteceu quando no domingo à noite António José de Araújo não quis pagar as despesas que tinha feito no Café Esteves, resolveu injuriar o seu empregado e, pior, atirar-lhe com um banco à cabeça, que o deixou em estado grave. Chamadas as autoridades, António José de Araújo acabou preso e levado para a esquadra!
Também nesse mesmo dia, noutra taberna, situada na rua Cruz de Pedra, o sapateiro José Valadas atirou com uma caneca à cabeça do caiador José Bernardino de Oliveira e ainda ameaçou e feriu o dono da taberna!
Na segunda-feira, dia 16 de novembro de 1899, foi a vez de um soldado de Infantaria 8 agredir violentamente com uma pedra o padeiro José Maria da Graça, que andava sossegadamente a distribuir pão pelas ruas do centro de Braga!
Quinze dias antes do Natal de 1899 (dia 11 de dezembro) foi encontrado e ferido com grande gravidade, no campo de S. Luís, Porfírio Gonçalves, de apenas 29 anos de idade.
Este caso atingiu contornos de grande mistério e conta-se em poucas palavras: Porfírio Gonçalves, criado de mesa no Hotel Mattos, na rua dos Chãos, tinha trabalhado até muito tarde, tendo saído do local de trabalho depois das três horas da manhã. Dirigiu-se de seguida para casa e, já perto das quatro da madrugada, foi encontrado por populares, gravemente ferido! Momentos depois veio a saber-se que, quando se dirigiu para casa, onde se encontrava a sua companheira, a taberneira Rosa do Certo, Porfírio Gonçalves deparou-se com outro homem dentro da sua própria casa, que o agrediu violentamente, lançando-o depois por uma janela do primeiro andar! O jovem caiu estrondosamente sob um andaime que lá se encontrava, e não mais se mexeu! Depois de levarem Porfírio Gonçalves para o hospital, a polícia identificou o homem, concluindo que se tratava de um indivíduo negociante de batatas no largo de Santo Agostinho!
Outro episódio que ocorreu mesmo a terminar o ano de 1899 verificou-se na freguesia de Gualtar. Num sábado à noite, o carroceiro Manuel Correia, desta freguesia, desentendeu-se com a esposa devido a um negócio. A zanga foi de tal forma violenta que a mulher teve que sair de casa e refugiar-se na casa de um vizinho, Manuel da Mota. Horas após da discussão, Manuel Correia resolveu sair de casa para procurar a esposa. Dirigiu-se a casa de Manuel da Mota, mas este negou que a mulher lá estivesse escondida. Pouco tempo depois, o marido regressou a esta casa, exigindo que a esposa de lá saísse, uma vez que tinha a certeza de que se encontrava aí escondida. Quando Manuel da Mota veio à janela do rés-do-chão, para ver o que se passava, foi imediatamente agredido com um golpe violento de machado, que lhe decepou logo ali o braço! Em estado grave, o ferido foi levado para o hospital e o carroceiro Manuel Correia levado para a esquadra da polícia!
Estes são alguns dos episódios que retratam um pouco o ambiente que existia em Braga, há pouco mais de cem anos.
Independentemente das razões que possam assistir a cada um de nós, e tal como evoca o filósofo francês Jean-Paul Sartre, “A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”.

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